Cilmar Machado

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O radialista Cilmar Machado escreve toda terça-feira neste espaço. O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.

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A ESQUINA DO PECADO...

Nas décadas de 60 e 70, na confluência das Ruas 21 de Abril e Luiz Gama, funcionava a famosa esquina do pecado, assim batizada por ser o local onde aposentados, remediados e desocupados, sem terem muito que fazer, tomavam cafezinhos no bar então ali existente e passavam a vida dos outros a limpo. Tudo se sabia, tudo se comentava. O tempo passou, o bar fechou, a área se transformou em Calçadão (década de 80), mas o ponto de encontro continuou, especialmente para os da chamada Terceira Idade. É impressionante o número deles que disputam os muitos bancos em frente à Tânger, em especial.

            Quarta-feira última, véspera do Corpus Christi, tive que ir ao Bradesco acertar umas contas. Pouco saio, mas naquele dia tive que fazê-lo. Peguei carona com meu filho e combinei buscar-me em uma hora, pois acreditava ser tempo suficiente para enfrentar a longa fila que se formava naquela casa bancária. Tive sorte e em quinze minutos tudo resolvi. Agora, tão somente restava-me aguardar a carona. Que fazer para que os minutos passassem mais depressa? A única alternativa era sentar-me num os bancos do Calçadão e aguardar...

            A cidade fervilhava de gente e veículos. Parecia que eu estava num autentico formigueiro humano. Corri buscando o cantinho de um banco onde já estavam quatro pessoas, em que apenas uma não era idosa e aparentava ser filho de uma das outras. Mal me sentei e ouvi: ¨Cilmar, e a arquibancada do Linense vai mesmo sair?¨ Não tive tempo de responder, pois disparou em seguida: ¨Vamos ver se o Edgar (Prefeito) e o tal do deputado Mussi conseguirão! Político, sabe como é, né?¨. Apenas sorri. Um senhor calvo e com alguns cabelos brancos ladeando a cabeça, parecendo me conhecer, perguntou: ¨Quantos anos de rádio você tem?¨ Respondi-lhe que ano que vem completo 60 anos dedicados em sua maioria ao rádio linense. Indagou-me se não sentia saudades dos tempos de início de carreira. E acrescentou: ¨Naqueles tempos Lins era melhor, mais calma e tranquila. Podia-se sair à rua com segurança a qualquer hora do dia ou da noite.¨ Argumentei que eram outros tempos, a cidade havia crescido e com isso surgiram os problemas. Com olhos distantes e saudosos, desabafou: ¨A cidade não cresceu, inchou. Veja: Lins tem a maior frota de veículos do interior, o maior número de pessoas por metro quadrado, ou seja, tá inchada!¨  Fiquei com vontade de responder que se está inchada é porque sua população cresceu, mas preferi dizer-lhe algo positivo: ¨Mesmo assim, Lins está classificada como a terceira cidade brasileira para os da terceira idade viverem, dado a qualidade de vida que lhes proporciona.¨ O idoso não se deu por rogado: ¨Também pudera, aqui só tem funcionário público!¨ Percebi que a conversa poderia esquentar e dei graças a Deus quando ouvi a buzina do carro de meu filho. Era a minha carona salvadora...

DIA DOS NAMORADOS...

Pedro não acreditava no que estava acontecendo, mas lá estava ele, no restaurante mais chique da cidade, sentado ao lado de sua esposa. Era o Dia dos Namorados. Walkiria, a única filha do casal, fora responsável por aquele encontro a dois. Comprou as adesões para o jantar e as passou aos pais, sob condição de que não deixassem de ir. E, sabe como é, quando a filha pedia, Pedro se derretia. E lá estava ele, absorto em seus pensamentos...

            Nunca fora muito romântico, ao contrário de Angelina, com quem se casara há mais de quarenta e dois anos. Tivera seus momentos de romance e ternura, mas a luta pela vida o transformou num ser fechado em si mesmo, sem nenhuma concessão aos gestos de carinho aos quais Angelina era merecedora e mesmo carente, embora jamais ouvisse dela uma queixa sequer a esse respeito. Para ele, estarem juntos bastava...

            Por sua vez, a esposa era toda sensibilidade e romantismo. Dotada de uma doçura imensa, com um jeitinho todo seu, sabia contornar problemas, evitar atritos, vibrar nas vitórias do marido e consolá-lo em seus momentos de baixo astral. Pedro, aos poucos, envolvido pela música romântica que se ouvia ao vivo no ambiente, foi amolecendo o coração e lançou seu olhar em direção a Angelina. Teve de volta a maior ternura que jamais recebera. Os olhos da esposa, numa linguagem muda que só um grande amor pode expressar, diziam da alegria que vivia naquele momento.

            Um delicioso flash back se fez presente. Pedro viu-se com ela, novamente jovens, trocando juras de amor eterno e traçando planos para a conquista da felicidade a dois. Percebeu o quanto devia em carinho e atenção àquela criatura que sempre o amara mais que a si própria. Angelina sempre fora luz em sua vida sem nada pedir em troca. Contentava-se em estarem juntos. Foi quando Pedro tomou as mãos de sua consorte, acariciando-as demoradamente. Um longo e apaixonado beijo selou aquele raro momento de ternura e agradecimento.

            Numa mesa ao lado, sem que se fizesse ver, Walkiria a tudo assistia e vibrava ao ver os pais na mais bela manifestação de amor. Também era sentimental, puxará a mãe, e as lágrimas de felicidade abundantes e soltas, rolaram de seus belos olhos verdes... 

UM SIMPLES CARTÃO POSTAL...

José pensava que o envio de cartões postais tivesse caído em desuso com a chegada da internet, mas não. O carteiro gritou pelo seu nome no portão e passou-lhe às mãos um belo e colorido cartão postal. Vinha do Japão, pois estampava um dos maiores símbolos daquela nação, o monte Fuji. Em seu verso, apenas cinco palavrinhas: ¨Eu ainda te amo¨, Sumie. Isso mexeu com José e o transportou ao tempo de seus 25 anos de vida. Jovem, elegante, universitário, com profissão definida, fazia grande sucesso junto às mocinhas da época. Era, como se dizia antigamente, um bom partido. Mas embora achasse muita gente bonita e interessante, seu coração ainda não havia encontrado a chamada cara-metade (outro termo daquela época). Cupido ainda não o flechara de forma definitiva e inapelável!

                Foi num domingo de muito sol que algo inesperado aconteceu. Saindo da Igreja Dom Bosco após a missa, como de hábito, José uma olhada na chamada Festa das Nações que se realizava na praça. Cada colônia de imigrantes aqui radicada tinha sua barraquinha onde vendia produtos típicos das diferentes nações. Foi na da colônia japonesa que viu aquela pequena deusa oriental. Tipo mignon, corpo perfeito, boca carnuda e olhos puxadinhos e amendoados chamaram sua atenção imediatamente. Não pensou duas vezes, adentrou à barraca, sentou-se e aguardou aquela verdadeira menina-moça aproximar-se para tomar-lhe o pedido. Que delicadeza, que educação, que primor de mulher! Após a segunda porção de uma deliciosa yakisoba e animado com o sorriso de acolhimento e encorajador da japonesinha, perguntou seu nome e a convidou para sair e passear no domingo seguinte. E assim tudo começou...

                Por três longos meses Sumie e José mantiveram um namoro puro, tão comum entre os jovens da época. A garota, no entanto, ficava apenas por uma hora em sua companhia e alegava que precisava voltar sozinha ao seu lar. Aquilo o encabulou e lhe disse que a pediria em namoro aos seus pais. Sumie tremeu da cabeça aos pés e disse que o amor entre os dois só poderia existir se José não fizesse aquilo. Confessou-se apaixonada, mas que devido à tradição japonesa, jamais poderia unir-se com um gaijin (estrangeiro, não japonês). Se viesse a se casar um dia, teria que ser através do Miái (casamento arranjado pelos seus pais) e nunca pelo denái (pela livre escolha de seu parceiro). Aquilo bastou para que José colocasse um ponto final no romance. Chorando muito, mas em silêncio, Sumie disse que respeitava sua decisão, mas que jamais o deixaria de amar.

                O tempo passou e ela e sua família voltaram à terra de seus pais. E hoje, após 30 anos e tão próximo do dia dos namorados, José recebeu dela aquele cartão postal provando a lealdade de um grande amor que não prosperou. Isso o fez matutar que se fosse nos dias de hoje, quando a miscigenação entre nipônicos e brasileiros é a coisa mais comum de acontecer, talvez ele estivesse com a bela princesinha do Oriente para sempre ao seu lado. Vieram-lhe as lágrimas no mais amargo Dia dos Namorados porque passou. Do outro lado do mundo, no Oriente distante, alguém chorou também...

FOBIA ELEITORAL...

Sabe aquele medo irracional que muita gente tem de baratas, cobras, aranhas e outros animais peçonhentos? Pois é, tenho todos. E agora, mais um veio surgindo há mais de um ano e que, especialmente após os acontecimentos do último final de semana, se transformaram numa verdadeira fobia. Confesso a vocês quepassei a ter verdadeiro pavor e consequente aversão a político, especialmente o da esfera federal. Bichinho tinhoso, de fala mansa, bonita e envolvente, transveste-se de arauto e defensor dos interesses do povo, mas na realidade só pensa sem si e na prática da famosa lei de Gerson, ou seja, tirar vantagem pessoal em tudo. E o resultado é esse verdadeiro caos que o mundo político brasileiro hoje atravessa, semeando desilusões e desesperança na alma de cada cidadão de bem. Com a divulgação e o conhecimento da tanta maracutaia, chega-se a duvidar de tudo e de todos.

            O pior ainda está por vir. Ano que vem acontecerão eleições. Deputados e senadores virão à cata de nosso voto. Em quem votar? Em quem confiar? Nenhum deles tem estrela na testa, não é? Certamente virão travestidos de defensores da moral e dos bons costumes, com um discurso de causar inveja à Madre Tereza ou à irmã Dulce. Dirão que apoiam a Lava-Jato, na qual foram inocentados de mentirosas acusações, fruto de perseguições políticas. Nos programas gratuitos na televisão veremos um autêntico desfile de candidatos que, pela mensagem que transmitirão, poderão até se transformarem em sérios concorrentes à santidade. O Vaticano que se prepare...

            Teremos ainda os franco-atiradores, isto é, os oportunistas que se aproveitando do desejo de renovação por parte do eleitor, se apresentarão como a única alternativa para a prática de uma política interessada somente no Brasil e em seu povo. Olho vivo, gente!

            Embora também haja políticos honestos e bem intencionados remanescentes da atual legislatura, a desconfiança já se encontra instalada no coração do eleitor. É pelos seus atos que se julga o político. É pela decência, pela moral, pelo patriotismo. Valha-nos, Deus!

FOLHAS DE OUTONO...

Elas chegam de mansinho, sem avisar. Basta um pequenino fato para que venham à nossa mente ideias e lembranças que acreditávamos sepultadas por todo o sempre. Dias atrás, a meditação e o aprendizado me pegaram de jeito exatamente quando eu descansava à sombra de um velho pé de ipê, em frente à minha casa. Vivera um dia extenuante, complicado, cheio de contrariedades e procurava esvaziar a mente de todos e quaisquer pensamentos negativos, que insistiam em pôr-me pra baixo. Foi quando me dei conta de observar um dos fenômenos mais comuns e próprios do outono/inverno, que ora vivenciamos.

         Como que numa sinfonia silenciosa, as folhas da árvore caiam incessantemente tomando totalmente a calçada abaixo de sua frondosa copa. Um verdadeiro tapete de folhas grandes, pequenas, em sua maioria amareladas, se estendia aos meus pés. Isto bastou para que fosse acionado o mecanismo da sensibilidade e observação. Percebi que nossas vidas são como as folhas daquele velho pé de ipê! Depois de exibir um verde intenso, cheias de viço, o passar do tempo e a força da natureza-mãe fazem com que as folhas percam a cor, sequem, se enrolem e caiam. Tudo isso para dar vida a uma nova folhagem no início da primavera.

         Também somos assim. Tudo tem seu tempo e hora. Saber reconhecer o momento de parar, de ser substituído pelos mais jovens, de aceitar com resignação e galhardia as limitações que a vida nos impõe é como que imitar as velhas folhas que caem de uma árvore, de forma silente, inexorável e constante. Naquela tarde, as velhas folhas caídas do ipê me levaram às lágrimas proporcionando-me uma doce e inexplicável paz,na certeza do dever cumprido por toda uma existência de sonhos e realizações... 

O BLOG DO FOGOLIN...

Quando se chega à Terceira Idade parece que as recordações fervilham. Uns as guardam para si, outros as contam mil vezes aos parentes e amigos sem se darem conta disso. Com a modernidade, porém, outros tantos criam seus blogs retratando neles todo o mundo de experiências pelas quais passaram. É o caso do João José Fogolin, linense nato e hoje morador de Agudos, onde é pequeno empresário. Dias desses tive a grata surpresa de acessar seu blog  (https://www.facebook.com/jjfogollin/?fref=ts), onde narra fatos de sua juventude aqui vividos. Destaco um deles:

JOÃOZINHO I – TABULEIRO DE DOCES

Desde pequeno sempre fui, digamos um pouco rebelde, familiarizando- me bem com as piadas do Joãozinho. Morava em uma chácara, em frente à Igreja NS Fátima em Lins e estudava no SESI, no centro da cidade. Que saudade da aventura diária com os colegas Deusdedite Favarão, Jorge, Jarbas (Jereba) e tantos outros que a memória agora não ajuda mais. Naqueles tempos a palavra era o bastante para qualquer acordo com os homens de bem, o chamado fio de bigode. Minha saudosa mãe como sempre apertou meu pai, não dê dinheiro ao Nenê (era meu apelido) porque ele está comendo muito doce e não esta almoçando direito. Pronto, ordem dada, ordem executada. Meu pai passou no doceiro que ficava na calçada do Bar Triangulo na Vila Junqueira e pediu para ele não vender mais doce para mim antes do almoço. Não sabendo da história cheguei com a turma antes do almoço e pedi um doce, é claro que não fui atendido, dei uma volta e pedi para o Jorge pegar, e o doceiro desconfiado também não vendeu. Atitude impensável nos dias de hoje, vendem até a maldita droga.

O tabuleiro de doce ficava embaixo de uma arvore, na calçada alta cerca de 60 cm da rua, o que facilitava o acesso para a charrete-taxi daquele ponto.

Em frente tinha uma lenhadora, onde consegui um barbante, a arma do crime. Amarrei barbante no pé do tabuleiro e no para lama da charrete, e subimos ao alto do monte de lenha para apreciar o espetáculo. Não deu outra: chegou uma senhora, acomodou-se na charrete e, ao balançar o chocalho o animal, saiu rapidamente espalhando doce por toda a rua. Risos de satisfação e com a alma lavada fui para casa cerca de 20 minutos dali. Naquele tempo não tínhamos telefone e não sei como minha família já estava sabendo do acontecido e todos na porta à minha espera.

Meu pai disse o seguinte: foi você? Querendo justificar minha atitude, ele não esperou eu terminar e disse: vá buscar a cinta para apanhar. E não podia trazer a mais leve, se não era com a fivela.

Pedir desculpas ao doceiro e pagar todo o prejuízo com minha mesada foi o pior. Imagino se a lei das palmadas não existisse, hoje eu estaria em Catanduvas.

A REFUGIADA...

                Minha mulher viajou e vi-me sozinho por quinze dias. Normal, para mim. Fora a saudade de minha cara-metade, até que é muito bom viver só, mas por pouco tempo, né? Os dias foram passando e por mais que me esforçasse a sujeira foi se acumulando. Roupas imundas, o banheiro pedindo limpeza, a louça todinha da casa sobre a pia clamando por água e sabão, a roupa passada e limpa para o uso diário chegando ao fim, os cabides vazios tomando conta do guarda-roupa... Era o fim! E pior: a dona da casa estaria de volta no próximo final de semana. Na quinta, resolvi dar um jeito, mas como não tenho vocação para o trabalho doméstico, liguei para uma Agência e pedi uma diarista. Tinha uma, mas para o feriado de sexta-feira Santa e somente sob a condição de que eu pagasse em dobro pelos seus serviços. Sem saída, topei na hora, mesmo sabendo que teria que levantar cedo para abrir a porta para a diarista. Logo no feriado quando pretendia dormir um pouco mais! Por que não pedi pelos seus serviços no início da semana?

                Dim, dom! O clássico som da campainha pegou-me já em pé. Era a diarista. Jovem, menos de trinta, cabelos negros, pele cor de cuia, sorriso amplo e olhar furtivo através dos olhos grandes e negros. Perguntei seu nome. Munira, disse-me ela. Em seguida, nada mais falou. Adentrou em meu lar e começou os serviços. Recolhi-me em meu escritório, sem deixar de observar seu jeito de trabalhar. Rápida e eficiente cuidou por primeiro do quarto, das roupas, do banheiro e depois partiu para a cozinha dando um trato nas louças usadas. Lá pelo meio-dia, chamou-me para vistoriar o trabalho que terminara. Surpreendeu-me o toque especial que dera em tudo que fizera. Detalhes criativos transformavam o ambiente em mais limpo e acolhedor. Havia certo quê de diferente em Munira. Percebendo minha aprovação, sorriu feliz e deixou escapar uma frase: ¨Alá Kibir¨...

                Perguntei-lhe o que significava tal expressão em árabe. ¨ Dieu soit loué¨, respondeu-me em francês. Passei a conversar com ela nesse idioma e pude saber que Munira era uma refugiada da Síria, onde exercia a profissão de professora e pertencia a uma família muito rica. A guerra levou seus pais, tomou-lhes tudo o que possuíam e a expulsou de seu país. Optou pelo Brasil onde, por ainda não dominar nosso idioma, teve que se sujeitar aos trabalhos domésticos. O papo durou mais algum tempo, recebeu o pagamento, despediu-se e se foi, mas não sem antes repetir o sonoro ¨Alá Kibir¨ (Deus seja louvado). De fato, glória a Deus por nos fazer viver num país que, apesar de seus problemas e mazelas, nos permite ainda a oportunidade de criar nossos filhos e com eles sonhar um futuro de paz, realizações e possibilidades...

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A NOVA HISTÓRIA DE CHAPEUZINHO VERMELHO...

                Nestes dias que antecedem mais um feriadão, o que queremos é nos divertir, não é? Pois bem, para isso, este texto é delicioso! Achei na internet, não vinha assinado por ninguém. Pelo sim, pelo não, fica o registro e o resguardo da eventual autoria a quem por ela reclamar:

Se a história da menina do Chapeuzinho Vermelho fosse real, como ela seria veiculada pela imprensa brasileira? Vamos conferir?:
No Jornal Nacional:
(William Bonner): "Boa noite. Uma menina chegou a ser devorada por um lobo na noite de ontem..." (Renata ): "… Mas a ação de um lenhador evitou a tragédia."
*Datena* :
Onde é que a gente vai parar, cadê as autoridades? A menina ia pra casa da vovozinha a pé! Não tem transporte público! E foi devorada viva...Um lobo, um lobo safado. Põe na tela, primo! Porque eu falo mesmo, não tenho medo de lobo, não!"...
*Luciana Gimenes*:
"Geeente! Eu tô aqui com a ex-mulher do lenhador e ela diz que ele é alcoólatra, agressivo e que não paga pensão aos filhos há mais de um ano. Abafa o caso!"
*Globo Repórter*:
"Tara? Fetiche? Violência? O que leva alguém a comer, na mesma noite, uma idosa e uma adolescente? O Globo Repórter conversou com psicólogos, antropólogos e com amigos e parentes do lobo, em busca da resposta. E uma revelação: casos semelhantes acontecem dentro dos próprios lares das vítimas, que silenciam por medo. Hoje, no Globo Repórter...
" *Discovery Channel*:
"Vamos determinar se é possível uma pessoa ser engolida viva e sobreviver."
*Revista Veja*:
"Lula sabia das intenções do Lobo."
*Revista Cláudia*:
"Como chegar à casa da vovozinha sem se deixar enganar pelos lobos no caminho."
*Revista Nova*:

"Dez maneiras de levar um lobo à loucura, na cama."
*Revista Isto É*:
"Gravações revelam que lobo foi assessor de político influente."
*Revista Playboy*:
(Ensaio fotográfico com Chapeuzinho no mês seguinte): "Veja o que só o lobo viu."
*Revista Vip*:
"As 100 mais sexys - Desvendamos a adolescente mais gostosa do Brasil!"
*Revista G Magazine*:
(Ensaio com o lenhador) "O lenhador mostra o tamanho do machado."
*Revista Caras*:
"Na banheira de hidromassagem, Chapeuzinho fala a CARAS: "Até ser comida pelo lobo, eu não dava valor pra muitas coisas na vida. Hoje, sou outra pessoa."
*Revista Superinteressante*:
"Lobo Mau: mito ou verdade?"
*Folha de São Paulo*:
"Lobo que devorou menina era do MST."
*O Estado de São Paulo*:
"Lobo que devorou menina seria filiado ao PT."
*Carta Capital*:
"Lobo assassino foi criado em fazenda de Aécio Neves"
*Capricho*:
Teste: "Seu par ideal é lobo ou lenhador?"

O ATROPELAMENTO...

Basta você ver o noticiário na TV ou abrir um jornal, seja ele qual for, para deparar com um desfile sem fim de notícias tristes e amargas que nos fazem duvidar do ser humano. Só se lê sobre corrupção, maus políticos, assassinatos, roubos, guerras e por aí vai. Vez ou outra, no entanto, é relatado um acontecimento que nos faz voltar a crer no Bem e na grandeza dos bons sentimentos. São fatos simples, como o que passo a relatar. O acontecido se deu há poucos dias em nossa cidade é real e envolve pessoas que, creio, gostariam fosse preservada sua privacidade. Adoto nomes e local fictícios em respeito aos protagonistas, talvez adeptos da máxima cristã que diz: ¨o que a mão direita faz, a outra não precisa ficar sabendo¨.

                Tudo aconteceu numa tarde quente, na Cidade das Escolas. Seu Alípio, septuagenário e solitário, se apegava ao casal de cães fox paulistinha que o fazia ainda crer na vida e ter dela alguma alegria. Na semana anterior havia perdido Xuxa, a fêmea. Restava-lhe tão somente o Pitoco, cãozinho alegre, brincalhão, invocado e zabereta, cujo único defeito era fugir de casa e ganhar a rua movimentada do bairro de seu dono. E foi numa dessas escapadas que tudo aconteceu. Em seu carro, Carlos descia a rua a 40 quilômetros por hora quando inadvertidamente Pitoco sai de casa em desabalada carreira. Seu Alípio chegou a gritar com o animal, mas não deu tempo. Carlos atropelou e matou Pitoco, parando o carro em seguida. Desceu e pode ver a expressão de desespero que o velho assumiu. Vieram as lágrimas de ambos os lados. O septuagenário tomou o animal em seus braços lamentando baixinho: ¨Na semana passada a Xuxa se foi e hoje você, Pitoco! Como vou ficar agora? Sozinho, sem ninguém?¨. A cena era comovente.

Carlos tentou consolar o ancião prometendo-lhe outro cachorro.  Chegou propor-lhe irem juntos a uma loja que vende animais para a escolha de um filhote. Seu Alípio manteve-se relutante, preferindo curtir sozinho sua dor. Os dias se passaram e Carlos começou a visitar o idoso. Aos poucos, foi convencendo-o a criar outro animalzinho que viesse a substituir as perdas de Xuxa e Pitoco. Duas semanas de passaram e, numa das visitas de Carlos, seu Alípio concordou em receber um novo cãozinho, desde que da mesma raça do falecido. Carlos contou a história aos seus amigos e uma alma boa e sensível se condoeu e arrumou um filhote de Fox Paulistinha que foi doado imediatamente ao velho. Foto foi tirada e postada no Facebook, com toda pompa e glória. A expressão de alegria de Seu Alípio parecida transparecer um recomeço à vida. O coração de Carlos, finalmente sossegou...

Eis aí toda a história real de solidariedade e sensibilidade aos sentimentos de nosso semelhante. São fatos assim, embora simples e pouco comuns, que nos compensam de tantas mazelas e notícias ruins que parecem dominar a vida do homem moderno.

A MOÇA DO COLETIVO

Todas as manhãs a via passar no coletivo do Rebouças. Quieta, olhar distante, cigarro na boca e fones nos ouvidos. Seguia impávida, na dela. Moça bonita, parecia seguir para o trabalho. Sua indiferença para com os demais passageiros, no entanto, me encabulava. Não aguentei, queria saber mais sobre ela. Tomei o coletivo por uma semana inteirinha só para observá-la melhor. Sentava-me num banco próximo que me permitia fazer isso. E lá seguia a moça quietinha, fumando seu cigarrinho e com os fones nos ouvidos. Comecei a divagar. Será que assim agia por sentir-se superior aos demais? Não levava jeito para isso! Seus traços e poucos gestos indicavam ser gente boa, apesar de solitária. Será que para ela o trabalho era um sacrifício e ao embarcar sentia-se como boi que vai para o matadouro, daí a sua cara de poucos amigos? Ou teria brigado com o namorado e se fechado totalmente? E o cigarro? Por que desde quando entrava no coletivo e até o ponto final mantinha apenas um cigarro à boca chegando ele até se apagar? Estaria enrolada em seus pensamentos a ponto de se esquecer de acendê-lo novamente? Assim foi de segunda a quinta-feira. Sentava-se sempre no mesmo banco e procedia de igual forma sem tirar nem pôr. E lá estava eu também. Até que me veio à mente a seguinte ideia: por que não abordá-la? Por que não perguntar a ela os motivos de tanto isolamento? Será que me responderia bem ou iria manter-se indiferente dando-me um sonoro chega pra lá? Não custa tentar, né? Eu não iria desperdiçar toda uma semana de observação e curiosidade.

                Aproveitei o lugar vago no banco em que estava, caprichei no sorriso e lhe disse um acolhedor oi. Absorta em seus pensamentos, a moça se assustou de início, mas depois tirou os fones do ouvido, apagou o cigarro, sorriu e disse pausadamente: ¨Percebi que você, durante toda a semana, vem me observando. Por quê?¨. Meio encabulado, respondi que sua figura, seus gestos e hábitos esquivos despertaram em mim uma natural curiosidade. Demonstrando paciência e praticidade, respondeu: ¨O que você quer saber? Sou uma pessoa comum, tenho 25 anos, trabalho numa gráfica e moro no Rebouças. Mantenho-me quieta porque necessito ficar só. Busco energias para só então atrair os outros para perto de mim. Não sou egoísta, apenas esse é o meu jeito de ser. Se pareço indiferente é porque estou cansada de viver num mundo onde pouco se ama. Se fumo, o faço para sentir satisfação em algo. Se uso fones de ouvido é para não ouvir os sons do mundo e sim músicas alegres para espantar os pensamentos tristes. ¨ Olhou-me, sorriu e arrematou: ¨É assim que você me vê?¨. Apenas sorri e apertei-lhe suavemente as mãos. Nada mais. Talvez por ver nela a metáfora do meu coração. Ela me fez ver a tristeza que carrego no peito, mesmo tendo que caminhar como se alegre fosse.

                E lá seguiu a moça do coletivo como que a cantar: ¨guarde o seu sorriso que eu quero passar com a minha dor... ¨.

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