Interessante como o acaso pode nos trazer grandes lições. Foi o que aconteceu comigo, certa tarde, quando fui ao consultório de meu médico. Não era a primeira vez que lá estivera, muitas outras houve, mas nunca observara tão de perto a cópia de um belo quadro do pintor francês Pierre Renoir, grande mestre do final de 1800. Não sou um expert em pinturas, mas sei que foi um impressionista com suas obras influenciadas pelo sensualismo da época e pelo estilo rococó. Naquela tarde, enquanto aguardava o atendimento sentado na sala de espera, contemplei o quadro de Renoir de forma diferente, humana e filosófica. Rememorei sua história pela qual que esse grande artista estava cheio de dores, atacado por reumatismo em todo corpo, especialmente nas mãos. Cada movimento de seu inspirado pincel arrancava-lhe dores terríveis. Seu rosto cobria-se de suor, mas ele aguentava a dor. Impossibilitado de ficar em pé, sentava-se, mas não desistia de pintar. E apesar de seu sofrimento, produziu obras primas que são apreciadas até hoje pela sua beleza estranha e patética. Um dia, um amigo do pintor perguntou: ¨Por que você não desiste de pintar? Por que insiste em torturar a si mesmo? Renoir respondeu-lhe: ¨A dor passa, mas a beleza permanece...¨.

                Foi exatamente essa frase do grande mestre da pintura que ficou remoendo em meu cérebro, naquele momento: a dor passa, mas a beleza permanece! Quantas vezes, no nosso dia-a-dia também enfrentamos situações assim? Em meio a tantas incertezas, dificuldades financeiras, problemas de família e do trabalho, por vezes nos parece ser mais fácil jogar a toalha, desistir, entregar os pontos. Mas exatamente por também pensar como Renoir, não desistimos, porque a beleza da vida permanece.

                Todos os dias trilhamos caminhos por uma Terra que não é nossa. Estamos no exílio e muitas vezes na dor, mas buscamos a Pátria celeste. Nossos passos, a cada momento nos aproximam do ponto desejado. Ainda não chegamos lá, mas estamos construindo o lugar onde iremos morar eternamente. A dor da caminhada passa, mas a beleza de uma vida dedicada ao trabalho, respeito a Deus e amor ao próximo, permanece. Trabalhamos para a eternidade.

                Muitas vezes nos sobrevém a tentação do desânimo e é-nos muito difícil manter o equilíbrio e o foco. Somos tentados a aderir à lei do mínimo esforço. Nessas situações é bom lembrar da frase de Renoir: ¨a dor passa, a beleza fica.¨ Afinal, pintamos um maravilhoso quadro para a eternidade...

                Fui chamado à realidade pela voz doce da sorridente secretária, que me conduziu ao médico. A este eu disse somente meus males físicos, já que fora curado dos males psicológicos e existenciais, ao observar o quadro de Renoir...

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