Descreve-la é fácil. Basta olhar para ela. Negra, corpo miúdo, dotada de uma beleza reprimida e castigada pelo trabalho de sol-a-sol, enfrenta o dia-a-dia empurrando um improvisado carrinho de mão pelas ruas da cidade à cata de papelão, garrafas pet e latinhas de cerveja. Assim é a vida dessa mulher que, cotidianamente passa em frente a minha casa. Parece ser de poucas palavras, mas não esconde o sorriso vez ou outra. É um sorriso quase introspectivo, pois só acontece quando ouve algo engraçado através dos fones de ouvido do radinho que a acompanha sempre. Tentei falar com ela, mas fiquei no meio do caminho. Senti-a distante e ensimesmada. Notei que gostava de fumar. Talvez fosse esse o único prazer que a fizesse sentir-se viva.

                Os dias foram passando e meu desejo aumentando por saber mais de sua vida. Minhas intenções buscavam tão somente conhecer os gostos, aspirações e desejos de tão diferente e quase exótica figura humana. O acaso, talvez o destino, conspirou finalmente em meu favor...

                Numa tarde quente, como o são todas as tardes em nossa cidade, ouço o toque do interfone. Uma voz feminina, que me pareceu rouca e cansada, pediu-me um copo d’ água. Ao abrir o portão para atender o que me fora solicitado, deparo-me com a moça da reciclagem. Suada, cansada, sem os fones de ouvido de seu inseparável radinho, havia estacionado o carrinho na frente de minha casa. Água bebida, papo iniciado.  

                Disse chamar-se Guiomar. Mãe solteira por duas vezes vira os companheiros se afastarem dela fugindo da responsabilidade no sustento de mulher e filhos. Por isso, ralava diariamente, em busca de produtos recicláveis que lhe garantissem ao menos o leitinho das crianças. Seus olhos fundos, marcados por imensas olheiras que denunciavam uma vida de aflição e de pouco sono, chegaram a brilhar quando falou de suas crianças, de dois e quatro anos.

                - E os amores? Você é nova ainda e tem muita lenha para queimar, disse-lhe procurando amenizar o baixo astral que insistia em ali se instalar.

                - Em matéria de amor, sou até pior que as latinhas de cerveja e garrafas pet que recolho. Elas, ao menos, servem para a reciclagem e são mais úteis que eu e minha vida. Pra quê um novo amor, senhor? Não carece. Homem não presta mesmo e eu não quero mais saber de nenhum deles.

                E assim foi encerrado o papo. Agradeceu o copo d’ água e saiu empurrando o carrinho, como se ele fosse tal e qual sua vida: andando sempre, recolhendo aqui e ali, migalhas de amor que lhe foram negadas pela vida e marcadas pela incompreensão e sofrimento...

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