Não sou muito de me desapegar das coisas. Minha mulher que o diga. Vive me cobrando uma faxina geral numa velha gaveta onde há vários objetos guardados por muito tempo. Mas, neste último final de semana, enfezei e resolvi livrar-me do que julgasse inútil ou ultrapassado. Comecei a remexer na minha saudade! Meu primeiro estilingue, o velho bilboquê dos tempos de infância, o álbum incompleto de figurinhas das Balas Futebol, de 1954, onde também estavam os jogadores do sempre querido Clube Atlético Linense, faltando apenas a do Américo Murolo, que era carimbada e difícil de ser encontrada. Lá, no fundo da gaveta, já amarelecida pelo tempo, encontrei uma caderneta que tinha em todas suas páginas apenas duas colunas, onde se liam tão somente as palavrinhas: DEVE e HAVER. Viajei no tempo e retrocedi às décadas de 60 e meados de 70, quando essas cadernetas eram muito utilizadas. Serviam para que fossem marcadas as compras feitas nas vendas (não havia os supermercados ainda), nas padarias, bares e até em lojas de confecções. O acerto das contas era mensal. A coluna HAVER, muito pouco utilizada, marcava eventual pagamento a mais, motivado quase sempre pela falta de troco por parte do comerciante. A confiança na lisura das anotações era recíproca. Eram muito difíceis as reclamações, pois a honestidade determinava a continuidade ou não das compras naquele estabelecimento.

            No entanto, a caderneta que guardei nada tinha a ver com compras e sim com a minha vida. Explico melhor: desde pequenos, minha mãe, sonhadora e amorosa, nos incentivava a ter um diário pessoal, onde anotávamos tudo o que julgávamos importante em nossas existências e, como o dinheiro era curto e não permitia comprar um álbum para isso, apelávamos para as cadernetas de compras que eram distribuídas gratuitamente nos armazéns. E assim fui anotando,por vários anos, impressões e fatosvividos até chegar à idade adulta, quando a luta pela vida não mais me permitiu nela escrever. Reli com carinho e saudade aquelas amarelecidas páginas e notei que somente utilizei para a escrita a coluna do DEVE, deixando a outra em branco. Quanto devo aos meus pais pelo amoroso, desinteressado e constante amparo por tantos anos?Com a tinta invisível da compreensão e do amor eles escreveram imperceptivelmente na coluna do HAVER, toda a história ao longo de minha vida. Agora, já amadurecido, vejo-me na obrigação de expressar nela tambémminha gratidão pela educação recebida especialmente de minha mãe, de quem talvez tenha herdado o sentimentalismocom o qual aqui me expresso. De meu pai, a alegria constante, a humildade e o respeito pelo semelhante.

            Devolvi a caderneta à gaveta, tranquei-a e disse à minha Sônia: ¨Vai ficar do jeito que está, nada de faxina. A minha saudade, não se joga fora¨...

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