Antes que você pense bobagem, deixe-me explicar o título desta crônica. Quando criança, todo começo de ano minha mãe, extremamente religiosa, fazia-nos passar por uma privação voluntária como forma de agradar a Deus. Ela chamava isso de mortificação, muito comum àquela época em que tudo era pecado e reparação. Tempos de uma igreja castradora e nada permissiva. E lá ficávamos eu e meu irmão sem jogar bola, que era a nossa maior paixão. Como o dia demorava passar! Não havia televisão, internet, só o rádio. Mas criança gosta de brincar e ao ar livre. À noitinha, a reza de um interminável terço a Nossa Senhora, findava o sacrifício a ela e a Deus oferecido.

            O tempo passou e a prática de mortificações foi ficando para trás, quase já no esquecimento. No entanto, no primeiro dia de 2017 veio-me à mente e, talvez tomado por imensa saudade de minha mãe ou de minha infância, resolvi praticar uma mortificação tal qual outrora fizera. Como já não tenho mais pique para jogar futebol procurei outra forma mais moderna de abstenção voluntária. Resolvi ficar por 12 horas longe do computador e também do celular.

As primeiras horas tirei de letra, pois aproveitando o feriadão, dormi até onze da manhã. Mais uma hora para um demorado banho e lá se foi um bom tempo. Lá pela uma, a coisa apertou. Deu uma imensa vontade de contatar com as pessoas com quem troco ideias todos os dias. Mas, resisti procurando fazer palavras cruzadas. Em pouco tempo me rebelei, especialmente quando o celular, que me esqueci de desligar, tocou o conhecido sinal de que havia uma chamada telefônica. No visor, era ela! Aquela morena bonita que há muito eu paquerava e que, apesar de minha insistência, jamais havia me ligado. Eu não poderia perder aquela oportunidade, mas perdi. Tudo em nome da mortificação! Afinal, eu era um homem de palavra e não um inconsequente...

Já no finalzinho da tarde, deu um imenso faniquito em acessar o Facebook. Queria saber das últimas, rir das piadas e sacadas dos (as) amigos (as), acompanhar todas aquelas mensagens chatas com lições de moral e citações religiosas e por aí vai... Esconjurei haver prometido aquele tipo de mortificação. Poderia ficar sem chupar sorvete ou mesmo sem tomar cerveja por um dia... Resisti bravamente até às oito da noite, quando o prazo se findou. Rezei apressadamente o terço oferecendo a Deus aquele meu penoso sacrifício e corri para o celular para tentar retornar o telefonema da garota dos meus sonhos. Não deu! O Hi-Fi estava mudo, pois a internet estava fora do ar. Comecei bem o ano, não é?...

O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.

София plus.google.com/102831918332158008841 EMSIEN-3
  • 1
  • 2
  • 3
  • 4
  • 5
  • 6
  • 7
  • 8
  • 9
  • 10
  • 11
  • 12
  • 13
  • 14
  • 15
  • 16
  • 17
  • 18
  • 19
  • 20
  • 21
  • 22
  • 23
  • 24
  • 25
  • 26
  • 27
  • 28
  • 29
  • 30
  • 31
  • 32
  • 33
  • 34
  • 35
  • 36
  • 37
  • 38
  • 39
  • 40
  • 41
  • 42
  • 43
  • 44
  • 45