Todas as manhãs a via passar no coletivo do Rebouças. Quieta, olhar distante, cigarro na boca e fones nos ouvidos. Seguia impávida, na dela. Moça bonita, parecia seguir para o trabalho. Sua indiferença para com os demais passageiros, no entanto, me encabulava. Não aguentei, queria saber mais sobre ela. Tomei o coletivo por uma semana inteirinha só para observá-la melhor. Sentava-me num banco próximo que me permitia fazer isso. E lá seguia a moça quietinha, fumando seu cigarrinho e com os fones nos ouvidos. Comecei a divagar. Será que assim agia por sentir-se superior aos demais? Não levava jeito para isso! Seus traços e poucos gestos indicavam ser gente boa, apesar de solitária. Será que para ela o trabalho era um sacrifício e ao embarcar sentia-se como boi que vai para o matadouro, daí a sua cara de poucos amigos? Ou teria brigado com o namorado e se fechado totalmente? E o cigarro? Por que desde quando entrava no coletivo e até o ponto final mantinha apenas um cigarro à boca chegando ele até se apagar? Estaria enrolada em seus pensamentos a ponto de se esquecer de acendê-lo novamente? Assim foi de segunda a quinta-feira. Sentava-se sempre no mesmo banco e procedia de igual forma sem tirar nem pôr. E lá estava eu também. Até que me veio à mente a seguinte ideia: por que não abordá-la? Por que não perguntar a ela os motivos de tanto isolamento? Será que me responderia bem ou iria manter-se indiferente dando-me um sonoro chega pra lá? Não custa tentar, né? Eu não iria desperdiçar toda uma semana de observação e curiosidade.

                Aproveitei o lugar vago no banco em que estava, caprichei no sorriso e lhe disse um acolhedor oi. Absorta em seus pensamentos, a moça se assustou de início, mas depois tirou os fones do ouvido, apagou o cigarro, sorriu e disse pausadamente: ¨Percebi que você, durante toda a semana, vem me observando. Por quê?¨. Meio encabulado, respondi que sua figura, seus gestos e hábitos esquivos despertaram em mim uma natural curiosidade. Demonstrando paciência e praticidade, respondeu: ¨O que você quer saber? Sou uma pessoa comum, tenho 25 anos, trabalho numa gráfica e moro no Rebouças. Mantenho-me quieta porque necessito ficar só. Busco energias para só então atrair os outros para perto de mim. Não sou egoísta, apenas esse é o meu jeito de ser. Se pareço indiferente é porque estou cansada de viver num mundo onde pouco se ama. Se fumo, o faço para sentir satisfação em algo. Se uso fones de ouvido é para não ouvir os sons do mundo e sim músicas alegres para espantar os pensamentos tristes. ¨ Olhou-me, sorriu e arrematou: ¨É assim que você me vê?¨. Apenas sorri e apertei-lhe suavemente as mãos. Nada mais. Talvez por ver nela a metáfora do meu coração. Ela me fez ver a tristeza que carrego no peito, mesmo tendo que caminhar como se alegre fosse.

                E lá seguiu a moça do coletivo como que a cantar: ¨guarde o seu sorriso que eu quero passar com a minha dor... ¨.

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