Minha mulher viajou e vi-me sozinho por quinze dias. Normal, para mim. Fora a saudade de minha cara-metade, até que é muito bom viver só, mas por pouco tempo, né? Os dias foram passando e por mais que me esforçasse a sujeira foi se acumulando. Roupas imundas, o banheiro pedindo limpeza, a louça todinha da casa sobre a pia clamando por água e sabão, a roupa passada e limpa para o uso diário chegando ao fim, os cabides vazios tomando conta do guarda-roupa... Era o fim! E pior: a dona da casa estaria de volta no próximo final de semana. Na quinta, resolvi dar um jeito, mas como não tenho vocação para o trabalho doméstico, liguei para uma Agência e pedi uma diarista. Tinha uma, mas para o feriado de sexta-feira Santa e somente sob a condição de que eu pagasse em dobro pelos seus serviços. Sem saída, topei na hora, mesmo sabendo que teria que levantar cedo para abrir a porta para a diarista. Logo no feriado quando pretendia dormir um pouco mais! Por que não pedi pelos seus serviços no início da semana?

                Dim, dom! O clássico som da campainha pegou-me já em pé. Era a diarista. Jovem, menos de trinta, cabelos negros, pele cor de cuia, sorriso amplo e olhar furtivo através dos olhos grandes e negros. Perguntei seu nome. Munira, disse-me ela. Em seguida, nada mais falou. Adentrou em meu lar e começou os serviços. Recolhi-me em meu escritório, sem deixar de observar seu jeito de trabalhar. Rápida e eficiente cuidou por primeiro do quarto, das roupas, do banheiro e depois partiu para a cozinha dando um trato nas louças usadas. Lá pelo meio-dia, chamou-me para vistoriar o trabalho que terminara. Surpreendeu-me o toque especial que dera em tudo que fizera. Detalhes criativos transformavam o ambiente em mais limpo e acolhedor. Havia certo quê de diferente em Munira. Percebendo minha aprovação, sorriu feliz e deixou escapar uma frase: ¨Alá Kibir¨...

                Perguntei-lhe o que significava tal expressão em árabe. ¨ Dieu soit loué¨, respondeu-me em francês. Passei a conversar com ela nesse idioma e pude saber que Munira era uma refugiada da Síria, onde exercia a profissão de professora e pertencia a uma família muito rica. A guerra levou seus pais, tomou-lhes tudo o que possuíam e a expulsou de seu país. Optou pelo Brasil onde, por ainda não dominar nosso idioma, teve que se sujeitar aos trabalhos domésticos. O papo durou mais algum tempo, recebeu o pagamento, despediu-se e se foi, mas não sem antes repetir o sonoro ¨Alá Kibir¨ (Deus seja louvado). De fato, glória a Deus por nos fazer viver num país que, apesar de seus problemas e mazelas, nos permite ainda a oportunidade de criar nossos filhos e com eles sonhar um futuro de paz, realizações e possibilidades...

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