José pensava que o envio de cartões postais tivesse caído em desuso com a chegada da internet, mas não. O carteiro gritou pelo seu nome no portão e passou-lhe às mãos um belo e colorido cartão postal. Vinha do Japão, pois estampava um dos maiores símbolos daquela nação, o monte Fuji. Em seu verso, apenas cinco palavrinhas: ¨Eu ainda te amo¨, Sumie. Isso mexeu com José e o transportou ao tempo de seus 25 anos de vida. Jovem, elegante, universitário, com profissão definida, fazia grande sucesso junto às mocinhas da época. Era, como se dizia antigamente, um bom partido. Mas embora achasse muita gente bonita e interessante, seu coração ainda não havia encontrado a chamada cara-metade (outro termo daquela época). Cupido ainda não o flechara de forma definitiva e inapelável!

                Foi num domingo de muito sol que algo inesperado aconteceu. Saindo da Igreja Dom Bosco após a missa, como de hábito, José uma olhada na chamada Festa das Nações que se realizava na praça. Cada colônia de imigrantes aqui radicada tinha sua barraquinha onde vendia produtos típicos das diferentes nações. Foi na da colônia japonesa que viu aquela pequena deusa oriental. Tipo mignon, corpo perfeito, boca carnuda e olhos puxadinhos e amendoados chamaram sua atenção imediatamente. Não pensou duas vezes, adentrou à barraca, sentou-se e aguardou aquela verdadeira menina-moça aproximar-se para tomar-lhe o pedido. Que delicadeza, que educação, que primor de mulher! Após a segunda porção de uma deliciosa yakisoba e animado com o sorriso de acolhimento e encorajador da japonesinha, perguntou seu nome e a convidou para sair e passear no domingo seguinte. E assim tudo começou...

                Por três longos meses Sumie e José mantiveram um namoro puro, tão comum entre os jovens da época. A garota, no entanto, ficava apenas por uma hora em sua companhia e alegava que precisava voltar sozinha ao seu lar. Aquilo o encabulou e lhe disse que a pediria em namoro aos seus pais. Sumie tremeu da cabeça aos pés e disse que o amor entre os dois só poderia existir se José não fizesse aquilo. Confessou-se apaixonada, mas que devido à tradição japonesa, jamais poderia unir-se com um gaijin (estrangeiro, não japonês). Se viesse a se casar um dia, teria que ser através do Miái (casamento arranjado pelos seus pais) e nunca pelo denái (pela livre escolha de seu parceiro). Aquilo bastou para que José colocasse um ponto final no romance. Chorando muito, mas em silêncio, Sumie disse que respeitava sua decisão, mas que jamais o deixaria de amar.

                O tempo passou e ela e sua família voltaram à terra de seus pais. E hoje, após 30 anos e tão próximo do dia dos namorados, José recebeu dela aquele cartão postal provando a lealdade de um grande amor que não prosperou. Isso o fez matutar que se fosse nos dias de hoje, quando a miscigenação entre nipônicos e brasileiros é a coisa mais comum de acontecer, talvez ele estivesse com a bela princesinha do Oriente para sempre ao seu lado. Vieram-lhe as lágrimas no mais amargo Dia dos Namorados porque passou. Do outro lado do mundo, no Oriente distante, alguém chorou também...

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