A MOÇA DE ÓCULOS... - 01/03/2016

Lá estava eu no consultório de um oftalmologista. Meus olhos davam os primeiros sinais de cansaço. Acreditava que fosse miopia, pois à distância as imagens embaralhavam. Perto, não havia problemas. Achei graça ao perceber que minha vista em muito se assemelhava às coisas do meu coração. Aos 45 anos bem vividos, tivera vários amores bem próximos, mas com a distância também se embaralharam e sumiram. Todavia ainda tinha esperanças, afinal o amor não tem idade, não é?

                Tinha tempo para pensar na vida. A espera era demorada e havia muitos pacientes na minha frente. Puxei conversa com um senhor que lá fora em busca dos exames que necessitava para concluir o processo de sua aposentadoria. Estava alegre e esperançoso. O mesmo estado de espírito não tomava conta de outra senhora. Faria exames preliminares que a levariam à operação de catarata em ambas vistas. Estava ansiosa e manifestava certo temor. O papo rolou solto até quando o médico chamou pelo meu nome. Cumprimentos de praxe e retorno à recepção onde a atendente pingaria um colírio para dilatação das pupilas. Apesar da delicadeza com que a moça procedeu a operação, senti um ardume bastante forte. ¨Isso é natural e passa rapidinho¨, disse-me ela sorrindo. Tinha razão. Em poucos minutos a ardência visual passou, mas tudo se tornou enorme tanto quanto minhas pupilas. Resultado: a visão se tornou turva, desfocada.

                Talvez por isso demorei perceber, sentada ao meu lado, uma moça linda, alta, rosto de deusa grega, com 25 anos no máximo, portando um óculos com armação negra, grossa e pesada, que não fazia jus ao seu rosto jovem e bem traçado. Fiquei a imaginar como ele seria ao natural pedindo aos anjos que ela tirasse os óculos, nem que fosse por um minuto. Estava com sorte! Ela foi atendida e, a exemplo do que aconteceu comigo, voltou para que lhe fosse pingado o colírio dilatador de pupilas. Foi a dica para puxar-lhe um papo. De poucas palavras, tímida talvez, limitou-se responder-me monossilábicamente, demonstrando muito polidamente ser reservada e recatada. Mas seus olhos, àquela hora já dilatados, deixaram transparecer um ar de acolhida e simpatia.

                Meu sonho durou pouco!  Foi chamada antes de mim e, após ser atendida, despediu-se de todos e ganhou a rua, mas não sem antes lançar-me um olhar esperançoso que ainda guardo. Hoje, vivo em busca da morena dos óculos negros que um dia balançou meu coração. Será que irei revê-la outra vez mais?...

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