Ufa, como era dura minha vida em Sampa. Trabalhava no Estadão, bem no Centro, e morava num minúsculo apartamento, daqueles em que o sol pede licença para entrar. Todos os dias úteis da semana, a mesma rotina: trabalhava o dia todo, saía as 17,30 e tomava o ônibus das 18, rumo a Carapicuíba. Era um misere danado! Horário do rush! Parecia que toda a população de São Paulo se dirigia aos mais variados pontos de ônibus em busca de seus lares. E lá estava eu, enfiado, espremido e enlatado num coletivo atochado de trabalhadores. Eram corpos que se comprimiam buscando um pouco de espaço. Ninguém se falava e todos se viravam como podiam. Sorte tinham os que conseguiam se sentar nos bancos da condução. Esse era um privilégio do qual nunca usufrui!  Não me queixava, apenas lamentava intimamente de sermos todos passageiros da agonia, como no filme. Que poesia poderia haver num ambiente desses?

            Talvez nenhuma, mas naquela sexta-feira, a coisa foi diferente. Em pé, comprimido por corpos suarentos como o meu, divisei bancos à frente, uma linda mão de mulher que se movia rapidamente sobre o teclado de um minúsculo celular. Tinha ritmo, parecendo ser a de uma virtuose ao piano. Mão clara, dedos finos e ágeis desfiava um sem número de teclas como que a escrever para certo alguém. Seria para o namorado? Ou para o amante? Não! Ao menos eu não queria que assim fosse. Estragaria toda a poesia daqueles doces momentos...

            E lá seguia eu fascinado por aquela mão feminina. Imaginava tendo-a entre as minhas ou acariciando meu rosto com ternura. Fui me apaixonando e cada vez mais ansioso por conhecer a dona daquela mão. O ônibus seguia e aos poucos foi se esvaziando. Chegou minha vez de descer, mas como a dona da mão que me enfeitiçara ainda persistia teclando seu celular, resolvi seguir em frente para quem sabe conseguir  vê-la ao descer do ônibus. Mas o destino não quis assim! Finalmente, o coletivo parou no ponto em que ela desceria, mas quando se levantou para descer, um número bastante grande de pessoas adentrou ao veículo fazendo com que eu a perdesse de vista. Vislumbrei apenas sua silhueta. E lá seguiu o ônibus até seu ponto final onde paguei pela viagem de volta e fiquei a sonhar de quem seria aquela mão de fada, rezando para tornar a vê-la na semana seguinte. Assim esperava acontecesse...

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