Finalmente chegara Dezembro. Viriam aquelas festas rotineiras de amigo secreto, ceia de Natal, a troca de presentes em família precedida pela reza de um longo e monótono terço e outro sem número de orações, coisa que a vovó septuagenária não dispensava e de todos cobrava. Ah, como essa época, que já fora por ela por várias vezes esperada e feliz, incomodava Dirce. Moça bonita, 35 anos. Embora bem sucedida profissionalmente, pois era dentista e tinha um consultório bem frequentado, não lograra igual sucesso nas coisas do amor. Tivera e rompera dois noivados, que lhe renderam traumáticas decepções e que a tornaram triste, amarga e incrédula de que poderia ainda ser feliz, ter seu amado, família e filhos. Mesmo assim, embora decepcionada, Dirce ainda manteve um pouquinho do bom-humor que outrora fartamente tivera. Quando perguntada se havia um novo alguém em sua vida ou se a fila para ela já andara, costumava pôr fogo de encontro dizendo que, em questões do coração, estava ¨fechada para balanço.¨

                Certa feita, atendendo em seu consultório, uma paciente contou-lhe da satisfação que sua filha tivera no ano passado ao escrever para o Papai Noel pedindo-lhe um brinquedo, no que foi atendida. O sorriso da criança ao receber o que solicitara foi uma das coisas mais belas que a mãe pode observar e registrar em seu celular.  Captou aquele instante mágico expressando um rostinho feliz, de tão somente cinco aninhos. Dirce contemplou a imagem por alguns instantes e, comentando sobre a beleza da filha, cumprimentou a mãe-coruja.

O dia passou e a dentista voltou para casa. Sem saber o porquê, a imagem da menina sorridente recebendo o presente de Noel, martelava-lhe a cabeça gerando mil pensamentos: ¨Se Papai Noel atendeu aquela menina também poderia dar-me igual tratamento. Poderia trazer-me um grande e verdadeiro amor.¨ Dirce expressou um muxoxo, riu tristemente e continuou conjecturando: ¨Ah, estou viajando na maionese! Papai Noel só atende crianças e eu já sou bem grandinha... Mas, não custa tentar, né? Mas, escrever? Será que Papai Noel não aceitaria um WhatsApp? Já não escrevo mais cartinhas com caneta e papel! Desacostumei-me... Ah, quer saber? Vou mandar-lhe um zap e ver no que dá...¨. Sentou-se frente ao computador e escreveu sua pretensão com todo coração e alma.

Passaram-se dois dias e Dirce até já havia se esquecido do que fizera, envolvida em sua rotina de trabalho. Foi quando, à noite, percebeu que Papai Noel lhe respondera. Abriu apressadamente a mensagem onde pode ler: ¨Minha adorável Dirce. Sua história me comoveu e, ainda neste final de semana, seu presente baterá à sua porta. Você gostará dele, tenho certeza. Felicidades, filha. Beijos do Papai Noel¨.

Dito e feito. Na sexta-feira, à tarde, surge em seu consultório um moço lindo que disse chamar-se Everton: ¨Eu sou o presente que você pediu ao velho Noel. Presto serviço voluntário nos Correios e, ao ler sua mensagem, tomei coragem e resolvi procurá-la. De há muito a admiro, mas tinha receio de não ser bem aceito. Posso ter esperança?¨. Dirce apertou-lhe a mão sorrindo e naquele instante teve a certeza de que ambos estariam lado ao lado, rezando contritos o terço em família na festa natalina deste ano, para a alegria em especial de sua querida vovó...

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