Dia desses fiz algo que de há muito não fazia. Não sei por que, mas me deu na sapituca de embarcar no primeiro Coletivo que por mim passasse. Era o da Junqueira/Paseto.  Queria espairecer, fugir do lufa-lufa diário, simplesmente desligar-me do cotidiano. Queria ver pessoas, ruas e praças que me levassem a matar saudade de um tempo que há muito se foi. Enquanto pagava e recebia o troco do cobrador, buscando um lugarzinho no Coletivo quase cheio, veio-me à memória os idos de 60 e 70, quando um japonesinho empreendedor, de nome Paulo Yoshiki Une, pôs a circular as duas primeiras peruas Kombi, que atendiam aos Ribeiro, Junqueira e Rebouças, então os maiores bairros da cidade.  Não havia ainda o Paseto e os Bom Viver, bem como o Paineiras, Primavera e outros hoje existentes. A cidade era pequenina à época. Não havia pontos de parada delimitados nem horários previsíveis de passagem da condução. A Kombi parava onde o passageiro pedisse. Daí a demora em cumprir todo seu itinerário. Mesmo assim, o povo abraçou a ideia e o negócio prosperou. Com o passar do tempo o serviço foi sendo bastante procurado, os usuários exigindo mais conforto, pontualidade, construção  de pontos de embarque e desembarque, veículos maiores e mais novos. Foi aí que a Prefeitura interveio. Disciplinou, criou normas e transformou um serviço que vinha sendo realizado de forma precária em uma atividade profissional, sujeita a concorrência pública para sua execução. O tempo passou, a cidade cresceu, vilas e bairros surgiram e o Coletivo a tudo acompanhou.

                Deixei as doces recordações e passei a observar os que estavam ao meu lado. O papo rolava solto e descontraído. O motorista, sério, compenetrado, seguia na dele. Duas mocinhas, com uniformes de diferentes firmas da cidade, trocavam palavras. Uma delas estranha ver a outra no Coletivo:

- Ué, Marta! Você por aqui? Via você ir e vir sempre de moto táxi!

- É a crise, Sirlene. No emprego que tinha antes, a grana dava para aquele luxo. Nesse novo, ganho menos e o jeito é apelar para o Coletivo que, apesar da demora, é mais barato.

Ao meu lado vejo um velhinho sorridente. Pergunto a ele se vai pra casa ou a de algum filho ou parente:

- Que nada, amigo. Já não tenho mais ninguém em minha vida. Todos se foram. Sou aposentado, tenho carteira de idoso e não pago passagem. Assim, para me livrar da solidão, ando de Coletivo o dia todo. Em todas as linhas, o pessoal me conhece...

Sábia decisão, pensei. Não tendo dinheiro para viajar e conhecer outros lugares, a pessoa se vira como pode visando esquecer os seus problemas e dores, promovendo a tão desejada catarse.

Fui acordado de meus pensamentos com voz cansada e rouca do motorista que, deixando o volante, anunciou a chegada ao ponto final. O jeito foi desembolsar mais um troquinho que me permitisse a viagem de volta...

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