Cilmar Machado

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O radialista Cilmar Machado escreve toda terça-feira neste espaço. O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.

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O BLOG DO FOGOLIN...

Quando se chega à Terceira Idade parece que as recordações fervilham. Uns as guardam para si, outros as contam mil vezes aos parentes e amigos sem se darem conta disso. Com a modernidade, porém, outros tantos criam seus blogs retratando neles todo o mundo de experiências pelas quais passaram. É o caso do João José Fogolin, linense nato e hoje morador de Agudos, onde é pequeno empresário. Dias desses tive a grata surpresa de acessar seu blog  (https://www.facebook.com/jjfogollin/?fref=ts), onde narra fatos de sua juventude aqui vividos. Destaco um deles:

JOÃOZINHO I – TABULEIRO DE DOCES

Desde pequeno sempre fui, digamos um pouco rebelde, familiarizando- me bem com as piadas do Joãozinho. Morava em uma chácara, em frente à Igreja NS Fátima em Lins e estudava no SESI, no centro da cidade. Que saudade da aventura diária com os colegas Deusdedite Favarão, Jorge, Jarbas (Jereba) e tantos outros que a memória agora não ajuda mais. Naqueles tempos a palavra era o bastante para qualquer acordo com os homens de bem, o chamado fio de bigode. Minha saudosa mãe como sempre apertou meu pai, não dê dinheiro ao Nenê (era meu apelido) porque ele está comendo muito doce e não esta almoçando direito. Pronto, ordem dada, ordem executada. Meu pai passou no doceiro que ficava na calçada do Bar Triangulo na Vila Junqueira e pediu para ele não vender mais doce para mim antes do almoço. Não sabendo da história cheguei com a turma antes do almoço e pedi um doce, é claro que não fui atendido, dei uma volta e pedi para o Jorge pegar, e o doceiro desconfiado também não vendeu. Atitude impensável nos dias de hoje, vendem até a maldita droga.

O tabuleiro de doce ficava embaixo de uma arvore, na calçada alta cerca de 60 cm da rua, o que facilitava o acesso para a charrete-taxi daquele ponto.

Em frente tinha uma lenhadora, onde consegui um barbante, a arma do crime. Amarrei barbante no pé do tabuleiro e no para lama da charrete, e subimos ao alto do monte de lenha para apreciar o espetáculo. Não deu outra: chegou uma senhora, acomodou-se na charrete e, ao balançar o chocalho o animal, saiu rapidamente espalhando doce por toda a rua. Risos de satisfação e com a alma lavada fui para casa cerca de 20 minutos dali. Naquele tempo não tínhamos telefone e não sei como minha família já estava sabendo do acontecido e todos na porta à minha espera.

Meu pai disse o seguinte: foi você? Querendo justificar minha atitude, ele não esperou eu terminar e disse: vá buscar a cinta para apanhar. E não podia trazer a mais leve, se não era com a fivela.

Pedir desculpas ao doceiro e pagar todo o prejuízo com minha mesada foi o pior. Imagino se a lei das palmadas não existisse, hoje eu estaria em Catanduvas.

A REFUGIADA...

                Minha mulher viajou e vi-me sozinho por quinze dias. Normal, para mim. Fora a saudade de minha cara-metade, até que é muito bom viver só, mas por pouco tempo, né? Os dias foram passando e por mais que me esforçasse a sujeira foi se acumulando. Roupas imundas, o banheiro pedindo limpeza, a louça todinha da casa sobre a pia clamando por água e sabão, a roupa passada e limpa para o uso diário chegando ao fim, os cabides vazios tomando conta do guarda-roupa... Era o fim! E pior: a dona da casa estaria de volta no próximo final de semana. Na quinta, resolvi dar um jeito, mas como não tenho vocação para o trabalho doméstico, liguei para uma Agência e pedi uma diarista. Tinha uma, mas para o feriado de sexta-feira Santa e somente sob a condição de que eu pagasse em dobro pelos seus serviços. Sem saída, topei na hora, mesmo sabendo que teria que levantar cedo para abrir a porta para a diarista. Logo no feriado quando pretendia dormir um pouco mais! Por que não pedi pelos seus serviços no início da semana?

                Dim, dom! O clássico som da campainha pegou-me já em pé. Era a diarista. Jovem, menos de trinta, cabelos negros, pele cor de cuia, sorriso amplo e olhar furtivo através dos olhos grandes e negros. Perguntei seu nome. Munira, disse-me ela. Em seguida, nada mais falou. Adentrou em meu lar e começou os serviços. Recolhi-me em meu escritório, sem deixar de observar seu jeito de trabalhar. Rápida e eficiente cuidou por primeiro do quarto, das roupas, do banheiro e depois partiu para a cozinha dando um trato nas louças usadas. Lá pelo meio-dia, chamou-me para vistoriar o trabalho que terminara. Surpreendeu-me o toque especial que dera em tudo que fizera. Detalhes criativos transformavam o ambiente em mais limpo e acolhedor. Havia certo quê de diferente em Munira. Percebendo minha aprovação, sorriu feliz e deixou escapar uma frase: ¨Alá Kibir¨...

                Perguntei-lhe o que significava tal expressão em árabe. ¨ Dieu soit loué¨, respondeu-me em francês. Passei a conversar com ela nesse idioma e pude saber que Munira era uma refugiada da Síria, onde exercia a profissão de professora e pertencia a uma família muito rica. A guerra levou seus pais, tomou-lhes tudo o que possuíam e a expulsou de seu país. Optou pelo Brasil onde, por ainda não dominar nosso idioma, teve que se sujeitar aos trabalhos domésticos. O papo durou mais algum tempo, recebeu o pagamento, despediu-se e se foi, mas não sem antes repetir o sonoro ¨Alá Kibir¨ (Deus seja louvado). De fato, glória a Deus por nos fazer viver num país que, apesar de seus problemas e mazelas, nos permite ainda a oportunidade de criar nossos filhos e com eles sonhar um futuro de paz, realizações e possibilidades...

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A NOVA HISTÓRIA DE CHAPEUZINHO VERMELHO...

                Nestes dias que antecedem mais um feriadão, o que queremos é nos divertir, não é? Pois bem, para isso, este texto é delicioso! Achei na internet, não vinha assinado por ninguém. Pelo sim, pelo não, fica o registro e o resguardo da eventual autoria a quem por ela reclamar:

Se a história da menina do Chapeuzinho Vermelho fosse real, como ela seria veiculada pela imprensa brasileira? Vamos conferir?:
No Jornal Nacional:
(William Bonner): "Boa noite. Uma menina chegou a ser devorada por um lobo na noite de ontem..." (Renata ): "… Mas a ação de um lenhador evitou a tragédia."
*Datena* :
Onde é que a gente vai parar, cadê as autoridades? A menina ia pra casa da vovozinha a pé! Não tem transporte público! E foi devorada viva...Um lobo, um lobo safado. Põe na tela, primo! Porque eu falo mesmo, não tenho medo de lobo, não!"...
*Luciana Gimenes*:
"Geeente! Eu tô aqui com a ex-mulher do lenhador e ela diz que ele é alcoólatra, agressivo e que não paga pensão aos filhos há mais de um ano. Abafa o caso!"
*Globo Repórter*:
"Tara? Fetiche? Violência? O que leva alguém a comer, na mesma noite, uma idosa e uma adolescente? O Globo Repórter conversou com psicólogos, antropólogos e com amigos e parentes do lobo, em busca da resposta. E uma revelação: casos semelhantes acontecem dentro dos próprios lares das vítimas, que silenciam por medo. Hoje, no Globo Repórter...
" *Discovery Channel*:
"Vamos determinar se é possível uma pessoa ser engolida viva e sobreviver."
*Revista Veja*:
"Lula sabia das intenções do Lobo."
*Revista Cláudia*:
"Como chegar à casa da vovozinha sem se deixar enganar pelos lobos no caminho."
*Revista Nova*:

"Dez maneiras de levar um lobo à loucura, na cama."
*Revista Isto É*:
"Gravações revelam que lobo foi assessor de político influente."
*Revista Playboy*:
(Ensaio fotográfico com Chapeuzinho no mês seguinte): "Veja o que só o lobo viu."
*Revista Vip*:
"As 100 mais sexys - Desvendamos a adolescente mais gostosa do Brasil!"
*Revista G Magazine*:
(Ensaio com o lenhador) "O lenhador mostra o tamanho do machado."
*Revista Caras*:
"Na banheira de hidromassagem, Chapeuzinho fala a CARAS: "Até ser comida pelo lobo, eu não dava valor pra muitas coisas na vida. Hoje, sou outra pessoa."
*Revista Superinteressante*:
"Lobo Mau: mito ou verdade?"
*Folha de São Paulo*:
"Lobo que devorou menina era do MST."
*O Estado de São Paulo*:
"Lobo que devorou menina seria filiado ao PT."
*Carta Capital*:
"Lobo assassino foi criado em fazenda de Aécio Neves"
*Capricho*:
Teste: "Seu par ideal é lobo ou lenhador?"

O ATROPELAMENTO...

Basta você ver o noticiário na TV ou abrir um jornal, seja ele qual for, para deparar com um desfile sem fim de notícias tristes e amargas que nos fazem duvidar do ser humano. Só se lê sobre corrupção, maus políticos, assassinatos, roubos, guerras e por aí vai. Vez ou outra, no entanto, é relatado um acontecimento que nos faz voltar a crer no Bem e na grandeza dos bons sentimentos. São fatos simples, como o que passo a relatar. O acontecido se deu há poucos dias em nossa cidade é real e envolve pessoas que, creio, gostariam fosse preservada sua privacidade. Adoto nomes e local fictícios em respeito aos protagonistas, talvez adeptos da máxima cristã que diz: ¨o que a mão direita faz, a outra não precisa ficar sabendo¨.

                Tudo aconteceu numa tarde quente, na Cidade das Escolas. Seu Alípio, septuagenário e solitário, se apegava ao casal de cães fox paulistinha que o fazia ainda crer na vida e ter dela alguma alegria. Na semana anterior havia perdido Xuxa, a fêmea. Restava-lhe tão somente o Pitoco, cãozinho alegre, brincalhão, invocado e zabereta, cujo único defeito era fugir de casa e ganhar a rua movimentada do bairro de seu dono. E foi numa dessas escapadas que tudo aconteceu. Em seu carro, Carlos descia a rua a 40 quilômetros por hora quando inadvertidamente Pitoco sai de casa em desabalada carreira. Seu Alípio chegou a gritar com o animal, mas não deu tempo. Carlos atropelou e matou Pitoco, parando o carro em seguida. Desceu e pode ver a expressão de desespero que o velho assumiu. Vieram as lágrimas de ambos os lados. O septuagenário tomou o animal em seus braços lamentando baixinho: ¨Na semana passada a Xuxa se foi e hoje você, Pitoco! Como vou ficar agora? Sozinho, sem ninguém?¨. A cena era comovente.

Carlos tentou consolar o ancião prometendo-lhe outro cachorro.  Chegou propor-lhe irem juntos a uma loja que vende animais para a escolha de um filhote. Seu Alípio manteve-se relutante, preferindo curtir sozinho sua dor. Os dias se passaram e Carlos começou a visitar o idoso. Aos poucos, foi convencendo-o a criar outro animalzinho que viesse a substituir as perdas de Xuxa e Pitoco. Duas semanas de passaram e, numa das visitas de Carlos, seu Alípio concordou em receber um novo cãozinho, desde que da mesma raça do falecido. Carlos contou a história aos seus amigos e uma alma boa e sensível se condoeu e arrumou um filhote de Fox Paulistinha que foi doado imediatamente ao velho. Foto foi tirada e postada no Facebook, com toda pompa e glória. A expressão de alegria de Seu Alípio parecida transparecer um recomeço à vida. O coração de Carlos, finalmente sossegou...

Eis aí toda a história real de solidariedade e sensibilidade aos sentimentos de nosso semelhante. São fatos assim, embora simples e pouco comuns, que nos compensam de tantas mazelas e notícias ruins que parecem dominar a vida do homem moderno.

A MOÇA DO COLETIVO

Todas as manhãs a via passar no coletivo do Rebouças. Quieta, olhar distante, cigarro na boca e fones nos ouvidos. Seguia impávida, na dela. Moça bonita, parecia seguir para o trabalho. Sua indiferença para com os demais passageiros, no entanto, me encabulava. Não aguentei, queria saber mais sobre ela. Tomei o coletivo por uma semana inteirinha só para observá-la melhor. Sentava-me num banco próximo que me permitia fazer isso. E lá seguia a moça quietinha, fumando seu cigarrinho e com os fones nos ouvidos. Comecei a divagar. Será que assim agia por sentir-se superior aos demais? Não levava jeito para isso! Seus traços e poucos gestos indicavam ser gente boa, apesar de solitária. Será que para ela o trabalho era um sacrifício e ao embarcar sentia-se como boi que vai para o matadouro, daí a sua cara de poucos amigos? Ou teria brigado com o namorado e se fechado totalmente? E o cigarro? Por que desde quando entrava no coletivo e até o ponto final mantinha apenas um cigarro à boca chegando ele até se apagar? Estaria enrolada em seus pensamentos a ponto de se esquecer de acendê-lo novamente? Assim foi de segunda a quinta-feira. Sentava-se sempre no mesmo banco e procedia de igual forma sem tirar nem pôr. E lá estava eu também. Até que me veio à mente a seguinte ideia: por que não abordá-la? Por que não perguntar a ela os motivos de tanto isolamento? Será que me responderia bem ou iria manter-se indiferente dando-me um sonoro chega pra lá? Não custa tentar, né? Eu não iria desperdiçar toda uma semana de observação e curiosidade.

                Aproveitei o lugar vago no banco em que estava, caprichei no sorriso e lhe disse um acolhedor oi. Absorta em seus pensamentos, a moça se assustou de início, mas depois tirou os fones do ouvido, apagou o cigarro, sorriu e disse pausadamente: ¨Percebi que você, durante toda a semana, vem me observando. Por quê?¨. Meio encabulado, respondi que sua figura, seus gestos e hábitos esquivos despertaram em mim uma natural curiosidade. Demonstrando paciência e praticidade, respondeu: ¨O que você quer saber? Sou uma pessoa comum, tenho 25 anos, trabalho numa gráfica e moro no Rebouças. Mantenho-me quieta porque necessito ficar só. Busco energias para só então atrair os outros para perto de mim. Não sou egoísta, apenas esse é o meu jeito de ser. Se pareço indiferente é porque estou cansada de viver num mundo onde pouco se ama. Se fumo, o faço para sentir satisfação em algo. Se uso fones de ouvido é para não ouvir os sons do mundo e sim músicas alegres para espantar os pensamentos tristes. ¨ Olhou-me, sorriu e arrematou: ¨É assim que você me vê?¨. Apenas sorri e apertei-lhe suavemente as mãos. Nada mais. Talvez por ver nela a metáfora do meu coração. Ela me fez ver a tristeza que carrego no peito, mesmo tendo que caminhar como se alegre fosse.

                E lá seguiu a moça do coletivo como que a cantar: ¨guarde o seu sorriso que eu quero passar com a minha dor... ¨.

CARNE FRACA

A notícia explodiu como um tsunami na última sexta-feira! Frigoríficos, entre eles empresas de renome internacional como BRF e JBS, através de seus fiscais corruptos, emitiam certificados de qualidade para produtos com diversos tipos de fraude, como o emprego de carnes estragadas e substâncias que mascaravam o mau cheiro dos produtos que ainda continham tiras de papelão e, no caso das linguiças, cabeça de porco, componente proibido. A população ficou perplexa. Não podia aceitar que fizessem isso, que comprometessem a saúde pública em busca do lucro fácil e do enriquecimento ilícito. A revolta explodiu nas redes sociais e também em Doralice, 30 anos, caixa de um supermercado local, mãe solteira, dois filhos. Só sossegou quando sentiu firmeza nas autoridades federais e na direção dos frigoríficos implicados ao tomarem imediatas providências, com o afastamento da máfia dos fiscais corruptos e funcionários inescrupulosos. Doralice concluiu que, apesar do ocorrido, não iria mudar seus hábitos nem de seus filhos quanto ao consumo de carnes. Iria, isto sim, redobrar a atenção ao conferir e mesmo exigir o selo do SIF, ao comprar tão necessária fonte de proteína animal ao ser humano. Decisão tomada, assunto encerrado.

            Só uma coisa passou a encabular Doralice: a sigla SIF, Serviço de Inspeção Federal. Respeitada e acatada por todos, o carimbo com essa sigla proporciona a confiança e a certeza de que determinado produto para o consumo humano está em perfeito estado de qualidade, validade e conservação. Foi aí que o coração romântico e sonhador de Doralice pensou: e se no Amor também houvesse um serviço de inspeção que fiscalizasse e não permitisse a adulteração de tão nobre sentimento? Bolou mentalmente uma sigla para tal: SIS, ou seja, Serviço de Inspeção Sentimental. Talvez se algo assim existisse seriam evitadas fraudes tão graves quanto as detectadas pela operação carne fraca. Quantos há que prometem amor e felicidade e oferecem tão somente a falsidade, o desamor, a tristeza e a dor? Por duas vezes acreditou em um alguém que a abandonou sem nenhuma explicação, deixando-a com dois filhos para criar. Ah, se houvesse e funcionasse o SIS, as coisas poderiam ser bem diferentes...

            Absorta em tais pensamentos Doralice foi desperta de seus sonhos por uma freguesa colocando as compras que fizera à sua frente. Nelas, notou uma peça de contrafilé. Sorriu gostosamente ao notar que o produto tinha o selo do SIF...

ASSUMIR OU SUMIR...

A diferença entre estas duas palavras é bem pequena: assumir ou sumir. O sentido de cada uma delas, no entanto, tem muita diferença.

            É o caso do João que assumiu o casamento, e três anos depois, sumiu da vida de Regina e nunca mais apareceu. É o caso do político cheio de bla bla bla, prometeu mundos e fundos e, depois que ganhou a eleição sumiu para não assumir o que prometeu. E não foi diferente com o jovem que se entusiasmou com uma profissão, mas na primeira dificuldade com o patrão sumiu do trabalho preferindo a vida cômoda dos que nada fazem e produzem.

            E você que me lê? Você que prometeu deixar de fumar e não deixou; você que prometeu amor a uma pessoa e depois disse que não tinha pensado bem no momento de sua promessa e sumiu com outra pessoa, deixando alguém infeliz e confusa; você que disse por várias vezes que acredita em Deus, mas por qualquer motivo banal deixou Deus, como se Ele fosse alguém que nada tem com sua vida; você que deseja ser livre e dono de si mesmo, mas se deixa levar por qualquer ideia, por qualquer convite, por qualquer aceno a uma vida fácil e sem compromissos? Quantas coisas assumimos e depois, por comodismo, sumimos, deixando alguém esperando e mesmo sofrendo.

             E porque sumimos, um trabalho ficou inacabado, um alguém ficou infeliz ou descontente, uma galera ficou esperando, uma mulher ficou chorando, um filho ficou decepcionado, um pai envelheceu de tristeza, uma criança ficou abandonada. E porque sumimos, o mundo ficou mais pobre, a humanidade mais infeliz, o dia mais tristonho, a noite mais solitária, a vida de todos com menos brilho e sabor.

            Não sumamos de nossos problemas e da vida. Realizar-se é assumir um compromisso e permanecer fiel até conclui-lo. Realizar-se é dar a vida por aquilo que se escolheu, por aquilo que se assumiu.

             Não sejamos como o vento que chega e num instante some...

VIAGEM DE TREM...

Zuleika Pastorello Tavares foi alguém que por muitos anos viveu em Lins e que, gostando de escrever, deixou crônicas e poemas que retratam uma alma pura e poética, narrando fatos por ela vividos e sentidos desde pouco antes da metade do século passado para cá. Zuleika faleceu em novembro de 2016. Sua filha, Vanessa, reuniu os escritos num livro (Retalhos da Vida, Bazar Editorial). Dele, extrai trechos da narrativa de uma viagem de trem que a autora fez quando criança, com seus pais. Era o tempo da Maria Fumaça, com sua locomotiva tocada a vapor. Os que também viveram aquela época irão recordar e os mais jovens conhecer como era o transporte de massa naqueles saudosos tempos.

            ¨ Nada era mais prazeroso do que as viagens de trem que a nossa família fazia, à casa de meus avós paternos... o Nonno e Nonna. O trem era na época o único meio de transporte coletivo à longa distância em uso, sendo assim, a correria era grande para se pegar um bom lugar e começava no momento em que os trens encostavam-se à estação. Papai atento, com as sacolas nas mãos, jogava a bagagem pela janela para segurar lugar nos bancos, enquanto mamãe, agarrava nossas mãos para não sermos atropelados por algum transeunte em meio à correria. Os trens, bem mais largos eram muito limpinhos e confortáveis e para os que tinham posses, os carros leitos possuíam até certo luxo; como lençóis de linho, bordados com o monograma da Companhia Paulista de Estrada de Ferro e que na realidade era inglesa, naquela época. Todos queriam as janelinhas, onde por elas apreciavam melhor a paisagem; um riacho, a mata densa, campos verdinhos, animais pastando...¨, relata Zuleika.

              A escritora fala ainda dos garçons ¨de jalecos e bibi brancos, que passavam e repassavam os vagões com suas bandejas repletas de cheirosos pastéis, sanduíches de mortadela ou de garrafas de refrigerantes e pilhas de copos. ¨Às vezes, quando o dinheiro não estava muito curto, papai optava pelo almoço do trem, o ¨prato feito¨ que vinha servido em prato fundo, coberto por outro prato fundo e muitíssimo bem amarrado por alvo guardanapo de tecido engomado, prendendo junto os talheres¨.

              Para a então menina Zuleika, tudo era novidade e encantamento. Recorda-se de cada parada do trem, das estações padronizadas ao estilo inglês, das casas sempre iguais do Chefe da Estação.  Diz ainda do povo que se juntava a cada gare para ver o trem chegar e partir o que era sempre momento de alegria e prazer para todos.

            Saudosa e emocionada, Zuleika conclui: ¨Cenas e momentos maravilhosos, guardados com tanta emoção, com tanto carinho, muitas vezes apagados no tempo, mas, que a qualquer instante, surgem vibrantes na memória e no coração.¨

 E foi exatamente o que me aconteceu! Obrigado Vanessa por eternizar em livro tão preciosas lembranças de sua mãezinha! Recordações queridas e comuns a muitos que também viveram essa época e iguais emoções. O livro de Zuleika você encontra nas Livrarias Curitiba (www.livrariascuritiba.com.br)...

CARNAVAL DA CRISE...

Estamos em plena terça-feira do Carnaval da crise. Dinheiro curto, gasto contido, mas não sem a alegria. Como é grande a capacidade do povo em adaptar-se às diversas situações e a tudo improvisar. Em Lins, a Casa da Cultura abrigou os foliões com desfiles internos de Escola de Samba e de inúmeros blocos. Estes, por sinal, vêm ganhando espaço nos últimos tempos. Parece que se acordou para o fato de que, especialmente no Rio e em São Paulo, o desfile das Escolas de Samba de há muito se tornou um empreendimento meramente comercial, disfarçado em pompas, poses e alegrias plastificadas. Artistas, famosos ou não, aderiram às Escolas recebendo altos cachês para isso. E o povo? A ele cabe tão somente pagar e espremer-se nas arquibancadas dos sambódromos, sendo mais espectador que participante. Pode-se chamar isso de festa do povo?

            No entanto, como diz o velho ditado, há males que vêm para bem. Especialmente a juventude está preferindo curtir os folguedos de Momo em outros grandes centros, onde o Carnaval é verdadeiramente feito para a maioria. Haja vista a grande procura pelo Carnaval baiano e pernambucano. Lá, os chamados trios elétricos arrastam verdadeiras multidões numa explosão de alegria pura e genuína. Os inúmeros e grandiosos blocos, com seus abadás, trazem também mensagens da chamada alma do povo.

Aos poucos, o retorno às origens carnavalescas volta com total e avassaladora força. Contam nossos pais e avós que, no tempo deles, havia os chamados entrudos (expressão herdada de Portugal). Eles eram tão somente um improvisado bloco de foliões que adentrava em fila no meio da multidão lançando confetes e serpentinas além do uso do hoje proibido lança-perfume.

Em Lins, nos idos das décadas de 50 e 60, o Carnaval de rua tinha como principal atração a Escola de Samba do Paíca, com sua forte batucada, não faltando as chamadas ¨onças¨. Elas eram polpudas mulatas e negras, contratadas com o dinheiro dado ao Paíca pelos ricaços da época e trazidas de Sampa. Usavam poucas roupas e, em sua maioria, enrolavam-se em peças que lembravam peles de onça. Daí o apelido. Findo o desfile formava-se o corso, que consistia num imenso desfile de carros, embora estes fossem em número bem menor que hoje. Símbolo de status e riqueza, os familiares do afortunado motorista se aboletavam nas viaturas, lançando serpentinas por todo o trajeto. Blocos se formavam nos Clubes Linense e Comercial, mas não saiam às ruas, restringindo-se tão somente aos salões. Também a Associação Esportiva Linense, chamada de Clube dos Japoneses, hoje Abcel, realizava bailes e matines durante o Carnaval. Os bailes do Country Clube surgiram somente na década de 70...

Estas, em síntese, rápidas pinceladas sobre os festejos de Momo em nossa cidade. Curta a seu modo e gosto estes dias de descontração e folia.

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ADEUS, MENESTREL DE LINS...

No último sábado, pensava no saudoso Agmon Carlos Rosa, o Menestrel de Lins. Já havia me recolhido ao leito, quando minha esposa veio a mim dizendo que havia um belo pássaro na copa. Mas, à noite? A pequena ave tinha adentrado pelo vitrô, então totalmente aberto devido ao intenso calor. Achei estranho, fui até ela e ao vê-la uma paz imensa tomou conta de minha alma. Não pude deixar de viajar pelas asas da imaginação! Seria a pequena ave mensageira do nosso Menestrel, como a que nos dizer que ele estava bem ao lado do Criador? Ou estaria ele cobrando-me uma despedida através de minha humilde crônica? 

            Escrever sobre um poeta é complicado. Sua forma de ver a vida e as coisas é bem mais livre e colorida. Agmon era assim. Vivia para a arte, respirava poesia e transpirava saudade. A Lins de sua juventude nele permanecia de forma latente e, nas diversas revistas por ele publicadas e patrocinada pelos incontáveis amigos e colaboradores, sempre deixava bem claro a paixão pela nossa cidade e sua gente.

            Agmon, nas décadas de 50 e 60, foi diretor do SESC em Lins. Também foi alto funcionário das Lojas Arapuã, do Caio e Jorge Jacó. Em meados de 1970, mudou-se para Campinas, onde comandou os destinos de uma Financeira, na qual trabalhou até sua aposentadoria. A partir daí o belo tomou conta de sua vida. Tinha a alma de poeta. Mudou-se para Holambra e viveu com sua companheira até a morte dela. Foi um baque em sua vida, superado somente anos mais tarde, quando retornou definitivamente para Lins e encontrou numa alma generosa e cristã seu último e derradeiro amor. Poeta não vive sem sua musa. E esta lhe foi a principal benção já nos últimos tempos de sua existência.

            O grande sonho de Agmon era pertencer à Academia Linense de Letras, mas não deu tempo. Mesmo assim, aquela prestigiosa entidade chegou a homenageá-lo em vida concedendo-lhe um diploma de colaborador e amigo das artes. Justa e derradeira homenagem. Descanse em paz, Menestrel de Lins. Vai-se o poeta, ficam suas poesias. E estas, são imortais...

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