Cilmar Machado

Cilmar Machado

O radialista Cilmar Machado escreve toda terça-feira neste espaço. Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

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LINS, QUASE CENTENÁRIA...

Sempre que chegamos a mais um ano de vida temos a natural tendência por fazer um balanço do que se passou até então. No aniversário do município isso também ocorre e naturalmente retroagimos no tempo até quanto nos lembramos de pessoas e fatos que marcaram nossa Lins. Bem ou mal, contidos ou atirados, populares ou personalistas, eficientes ou não, na verdade, os prefeitos que por aqui passaram foram os construtores de nossa história. Talvez por isso e também pelo glamour que o cargo oferece, a corrida pela Prefeitura já está bastante movimentada. Opiniões, comentários e críticas são vistos nas chamadas redes sociais que se transformaram em autêntico fórum de debate popular. Ali, ex-Prefeitos são criticados ou louvados, nomes são sugeridos e até proclamados para ocupar o maior cargo da cidade. Mas, qual seria o Prefeito ideal? Que atributos deveria ter para levar Lins a maior progresso e desenvolvimento? A lista de exigências dos internautas eleitores é extensa e algumas beiram a utópica imagem de um autêntico super-homem! Sonhar não é pecado, como diria o poeta...

                A exemplo do que ocorre na vida de todo cidadão, cada prefeito é fruto de sua época. Sua atuação atende aos problemas mais prementes enfrentados pela sociedade de seu tempo. Não há muito o que inventar ou inovar. O prefeito faz aquilo que lhe permita a receita do município e as eventuais verbas que possa conseguir junto aos governos estadual e federal, mercê de seu Partido, prestígio e relacionamento político. Saber bem relacionar-se com todos é-lhe condição imprescindível, pois muitas vezes, o fracasso em se conseguir benefícios à cidade se deve à falta dessa qualidade no administrador. Portanto, acrescente-se na lista de atributos a serem exigidos dos eventuais candidatos, a capacidade de relacionamento, de diálogo, de convencimento. Um Prefeito que não se comunica com seus munícipes, vereadores e autoridades estaduais e federais, nos dias de hoje, estaria relegado a um isolamento pernicioso ao seu futuro político e ao município. Nenhuma cidade é uma ilha! Tivemos prefeitos tipo gerentão, isto é, ótimos para administrar a cidade e péssimos no relacionamento político. Outros houve que agiram exatamente ao contrário dando ênfase apenas à política, esquecendo-se da administração do dia-a-dia. O ideal está no meio termo. É preciso alguém que saiba sonhar, mas tanto quanto possível com os pés no chão. Neste ano em que o prazo para expor suas ideias no rádio será mais curto, o candidato a Prefeito necessitará se virar nos 30, como diria o Faustão, para se dar a conhecer e divulgar o que pretende fazer. Já antevejo o valor e a eficiência das redes sociais neste particular. O eleitor é preciso ficar atento e saber separar o joio do trigo.

Arrematando, ao comemorarmos os 96 anos de nosso município, constatamos no frigir dos ovos que Lins cresceu o tanto quanto podia nas três últimas décadas, mas poderia ser melhor. Estamos na base do ¨tá ruim, mas tá bão¨. Mas as esperanças não se esgotaram. Novas forças se movimentam neste ano eleitoral o que nos garante, quem sabe em breve, começar de novo...

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OS DOIS BRASIS...

Em 1957, o francês Jacques Lambert publicou o livro Os Dois Brasís, no qual destacava a grande diferença no desenvolvimento econômico e social entre o Norte/Nordeste e o Sudeste e Sul Maravilha. Se fosse nos dias de hoje, sob o ângulo estritamente político, os dois Brasís seriam Brasília e o resto do país. Enquanto na capital federal os políticos se degladiam na manutenção ou conquista do poder, executando manobras nem sempre recomendáveis, paralisando com isso o desenvolvimento e a economia da nação, os cidadãos comuns dão verdadeiros exemplos de solidariedade e desprendimento. Na semana que se passou, três fatos ocorridos em nossa cidade testemunham exatamente isso.

                Contando com o apoio financeiro de muitos solidários doadores, o pequeno linense Enzo Corrêa realizou o primeiro transplante de células endoteliais em um dos olhos no último dia 5, em Sorocaba. “A cirurgia foi um sucesso e ele está bem”, afirmou a mãe Daniele Bighetti Corrêa. A luta por mais doações continua para sequência de seu tratamento.

                Outro fato relevante, que carrega grande dose de humanismo e solidariedade, foi o encontro entre dois linenses que não se falavam há vinte anos. Manoel de Lima, o King, antigo motorista de taxi no Ribeiro e Militão Caetano do Rego, consagrado alfaiate aposentado, respectivamente com 91 e 94 anos de idade, voltaram a apertar as mãos reatando velha amizade desde os tempos da Liga Linense de Futebol Amador, então dirigida por Militão, onde King era árbitro. Concorreram para que o encontro se desse de maneira emocionante e harmoniosa, a filha de Militão (Sandra), o filho de King (Paulo César) e o amigo comum de ambos, Luiz Carlos Nardi.

                E a coisa não parou por aí! Surgiu mais um acontecimento marcante o qual foi exibido pelo Luiz Carneiro, no Facebook. Mostra fotos em que o senhor Jerônimo Lima, de 90 anos, aparece fazendo o plantio de mudas de árvores frutíferas ao longo da pista de Cooper, na marginal do Campestre. Sua alma simples, de origem sertaneja, de há muito percebeu a necessidade de árvores em nossa tão calorenta cidade. O fato de só plantar frutíferas se justifica ao visar o futuro, como ele bem diz.

                São fatos como os acima narrados que nos fazem crer ainda mais na pureza de intenções do cidadão comum, tão distante das disputas pelo poder e tão próximo do dia-a-dia de nossas vidas...

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AMOR RECICLADO...

Descreve-la é fácil. Basta olhar para ela. Negra, corpo miúdo, dotada de uma beleza reprimida e castigada pelo trabalho de sol-a-sol, enfrenta o dia-a-dia empurrando um improvisado carrinho de mão pelas ruas da cidade à cata de papelão, garrafas pet e latinhas de cerveja. Assim é a vida dessa mulher que, cotidianamente passa em frente a minha casa. Parece ser de poucas palavras, mas não esconde o sorriso vez ou outra. É um sorriso quase introspectivo, pois só acontece quando ouve algo engraçado através dos fones de ouvido do radinho que a acompanha sempre. Tentei falar com ela, mas fiquei no meio do caminho. Senti-a distante e ensimesmada. Notei que gostava de fumar. Talvez fosse esse o único prazer que a fizesse sentir-se viva.

                Os dias foram passando e meu desejo aumentando por saber mais de sua vida. Minhas intenções buscavam tão somente conhecer os gostos, aspirações e desejos de tão diferente e quase exótica figura humana. O acaso, talvez o destino, conspirou finalmente em meu favor...

                Numa tarde quente, como o são todas as tardes em nossa cidade, ouço o toque do interfone. Uma voz feminina, que me pareceu rouca e cansada, pediu-me um copo d’ água. Ao abrir o portão para atender o que me fora solicitado, deparo-me com a moça da reciclagem. Suada, cansada, sem os fones de ouvido de seu inseparável radinho, havia estacionado o carrinho na frente de minha casa. Água bebida, papo iniciado.  

                Disse chamar-se Guiomar. Mãe solteira por duas vezes vira os companheiros se afastarem dela fugindo da responsabilidade no sustento de mulher e filhos. Por isso, ralava diariamente, em busca de produtos recicláveis que lhe garantissem ao menos o leitinho das crianças. Seus olhos fundos, marcados por imensas olheiras que denunciavam uma vida de aflição e de pouco sono, chegaram a brilhar quando falou de suas crianças, de dois e quatro anos.

                - E os amores? Você é nova ainda e tem muita lenha para queimar, disse-lhe procurando amenizar o baixo astral que insistia em ali se instalar.

                - Em matéria de amor, sou até pior que as latinhas de cerveja e garrafas pet que recolho. Elas, ao menos, servem para a reciclagem e são mais úteis que eu e minha vida. Pra quê um novo amor, senhor? Não carece. Homem não presta mesmo e eu não quero mais saber de nenhum deles.

                E assim foi encerrado o papo. Agradeceu o copo d’ água e saiu empurrando o carrinho, como se ele fosse tal e qual sua vida: andando sempre, recolhendo aqui e ali, migalhas de amor que lhe foram negadas pela vida e marcadas pela incompreensão e sofrimento...

RECEITA PARA BEM VIVER...

Dona Isaura, Isaurinha para os íntimos, é uma figura minúscula e delicada que gosta de sempre sorrir. Sinto-me bem ao conversar com ela, pois aos 85 anos, extremamente lúcida, sempre tem uma palavra interessante e apropriada para com todos. Dia desses, quando se aproximava a data de seu aniversário, não pude deixar de perguntar-lhe sobre o segredo de sua longevidade e otimismo. Sem se fazer de rogada, Isaurinha começou a desfiar um autêntico rosário de sabedoria, vindo de sua sofrida experiência e de seu coração. Acomodou-se em sua poltrona favorita e sentenciou:

                - Meu filho, há algumas coisas que observei ao longo do tempo e que tornaram minha vida mais tranquila e feliz. São coisas simples, mas funcionam. Quer saber?

                Após dizer-lhe sim, tomou em suas mãos um velho e amarelado caderninho e passou a ler:

- Não compare sua vida com a dos outros. Você não tem ideia do que se trata a caminhada de cada um de nós;
- Na vida, tudo pode mudar num piscar de olhos; mas não se preocupe porque Deus nunca dorme;.
- Respire bem fundo. Isso acalma os pensamentos;
- Ninguém é responsável pela sua felicidade, só você.
- Perdoe a tudo e a todos.
- O que as outras pessoas pensam de você não é de sua conta. A única boca que você poderá controlar é a sua;

- Deus te ama por causa de quem Ele é e não pelo que você fez ou deixou de fazer. Ao servir a Deus não há contabilidade e nem toma lá, dá cá;
- Seus filhos só têm uma infância. Ao crescerem, deixe-os seguirem suas vidas;
- Lembre-se sempre que tudo o que realmente importa, no final da vida, é que você amou.
- A vida não vem embrulhada em um laço, mas ainda é um presente de Deus...

                Agora todos já sabemos o segredo da longevidade de Dona Isaurinha. É só seguir seus conselhos e partir para comemorar, quem sabe, nosso centenário...

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O IMPEACHMENT...

Cobram-se alguns leitores que eu escreva alguma coisa sobre o impeachment contra a presidente Dilma. Talvez por haver vivido por bom tempo e mesmo ter passado por uma experiência política local, acho que o melhor posicionamento agora seria o de observação e cautela. Os fatos acontecem tão rapidamente que modificam a cada momento o fragilizado cenário político nacional. A Câmara dos Deputados já deu andamento à Comissão Processante que, nos próximos 40 ou 45 dias, deverá apresentar seu relatório final ao Plenário para que este julgue da aprovação ou não do impeachment. A verdade está na necessidade da retomada o mais rápido possível da governabilidade, que se vê completamente parada, atordoada pela sucessão de fatos e denúncias comprometedoras.

                As manifestações de rua, contra e a favor de Dilma, consigam ou não seus objetivos, têm o mérito de promover o amadurecimento da maioria do nosso povo, que pretende dizer um basta definitivo à grossa corrupção e ao chamado jeitinho brasileiro.  Diz o ditado que cada povo tem o governo que merece. E, no Brasil, isso parece ser cada vez mais real.  O empregado que arruma um atestado médico fajuto para folgar no trabalho dizendo-se doente; o vendedor da feira que vende onze bananas como se fossem uma dúzia; o estudante que mata a aula e diz aos pais que foi à escola naquele dia; o cidadão que estaciona o carro na Zona Azul dizendo à moça encarregada que não vai pagar porque vai demorar no máximo cinco minutos e ali seu carro permanece estacionado gratuitamente por várias horas; a pessoa que promove a limpeza de seu quintal e deixa na rua galhos de árvores e mesmo restos de construção, sem mandar retirá-los, esperando meses para que caminhão da Prefeitura os recolha de graça dando-lhes o destino correto. E, por aí vai...  

                Devemos sim combater a corrupção de muitos dos nossos políticos e dirigentes, mas também precisamos ser mais honestos nas relações para com o próximo, com Deus, com o trabalho e com nossa família. Só assim teremos moral para exigir dos que nos representam probidade e respeito para com as coisas públicas.

                Como se observa, tudo é decorrência da chamada educação! Um povo só pode ser evoluído e feliz conhecendo e praticando seus deveres e direitos. Façamos a nossa parte...

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A ROTUNDA

Por escrever por antecipação esta coluna - exigência da redação deste jornal - não pude saber o resultado da sessão da Câmara Municipal que, ontem, deve ter decidido pela doação ou não da Rotunda para empresários linenses, que propõem ali instalar o Shopping Rotunda, tornando realidade um velho sonho de consumo da população.

Confesso que sou amplamente favorável à doação da área, observadas as naturais medidas que nos resguardam de um eventual insucesso na implantação total do empreendimento.  Vejo, com bons olhos, a oportunidade única de o município celebrar a tão sonhada parceria com o setor privado. E isso tem tudo para dar certo! Os investidores e proponentes são oriundos de duas famílias locais, Roman e Bertin. Este é um fator a mais que os compromissa fortemente junto à nossa sociedade.

É bem verdade que a Prefeitura terá seu ônus providenciando a urbanização e o asfaltamento de ambas marginais do córrego Barbosinha, ligando a Rotatória, próxima à Rodoviária e CSU, à Rotunda. Alega-se que, se o prefeito disse não ter dinheiro para asfaltar os bairros, como o terá para essa obra? Acredito que seja uma questão de prioridade para se aproveitar esta oportunidade única, valendo aqui a citação do velho Camões: ¨Cessa tudo quando a Musa maior canta¨...  Em outras palavras, o que seria melhor para a cidade: o asfaltamento das ruas de vários bairros ou a possibilidade de se proporcionar entre 200 e 500 novos empregos aos nossos moradores? E mais: para realizar as obras exigidas, o Prefeito poderá valer-se de seu ótimo relacionamento com o Governador e conseguir, no mínimo, uma parceria com o Estado, fundamentado no relevante argumento de que as obras de infraestrutura pretendidas trarão mais empregos para os linenses.

Chegamos a um impasse: é pegar ou largar! Se a pretensão do Prefeito ontem tiver sido rejeitada pelos vereadores, a Rotunda volta a ser um elefante branco para o município, pois sua doação exige também gastos, como a implantação de um bosque e outras onerosas providências que, mesmo que cumpridas, colocarão prefeito e vereadores numa sinuca de bico: o que fazer com a Rotunda? Seria mais uma peça de museu municipal?

A alegação de que o Shopping  Rotunda prejudicará o comércio local com a concentração de lojas, supermercado e outros serviços, não procede. Lins precisa começar a pensar grande, se quiser crescer. A livre concorrência leva à criatividade e ao aperfeiçoamento.

Finalmente, a preocupação de que os dividendos políticos que a implantação do empreendimento trará ao prefeito Edgar possam leva-lo à reeleição é uma decorrência normal no jogo político. Que os outros eventuais concorrentes a chefe do Executivo local apresentem suas ideias, propostas e argumentos a fim de conquistarem a preferência do povo.

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A MOÇA DE ÓCULOS... - 01/03/2016

A MOÇA DE ÓCULOS... - 01/03/2016

Lá estava eu no consultório de um oftalmologista. Meus olhos davam os primeiros sinais de cansaço. Acreditava que fosse miopia, pois à distância as imagens embaralhavam. Perto, não havia problemas. Achei graça ao perceber que minha vista em muito se assemelhava às coisas do meu coração. Aos 45 anos bem vividos, tivera vários amores bem próximos, mas com a distância também se embaralharam e sumiram. Todavia ainda tinha esperanças, afinal o amor não tem idade, não é?

                Tinha tempo para pensar na vida. A espera era demorada e havia muitos pacientes na minha frente. Puxei conversa com um senhor que lá fora em busca dos exames que necessitava para concluir o processo de sua aposentadoria. Estava alegre e esperançoso. O mesmo estado de espírito não tomava conta de outra senhora. Faria exames preliminares que a levariam à operação de catarata em ambas vistas. Estava ansiosa e manifestava certo temor. O papo rolou solto até quando o médico chamou pelo meu nome. Cumprimentos de praxe e retorno à recepção onde a atendente pingaria um colírio para dilatação das pupilas. Apesar da delicadeza com que a moça procedeu a operação, senti um ardume bastante forte. ¨Isso é natural e passa rapidinho¨, disse-me ela sorrindo. Tinha razão. Em poucos minutos a ardência visual passou, mas tudo se tornou enorme tanto quanto minhas pupilas. Resultado: a visão se tornou turva, desfocada.

                Talvez por isso demorei perceber, sentada ao meu lado, uma moça linda, alta, rosto de deusa grega, com 25 anos no máximo, portando um óculos com armação negra, grossa e pesada, que não fazia jus ao seu rosto jovem e bem traçado. Fiquei a imaginar como ele seria ao natural pedindo aos anjos que ela tirasse os óculos, nem que fosse por um minuto. Estava com sorte! Ela foi atendida e, a exemplo do que aconteceu comigo, voltou para que lhe fosse pingado o colírio dilatador de pupilas. Foi a dica para puxar-lhe um papo. De poucas palavras, tímida talvez, limitou-se responder-me monossilábicamente, demonstrando muito polidamente ser reservada e recatada. Mas seus olhos, àquela hora já dilatados, deixaram transparecer um ar de acolhida e simpatia.

                Meu sonho durou pouco!  Foi chamada antes de mim e, após ser atendida, despediu-se de todos e ganhou a rua, mas não sem antes lançar-me um olhar esperançoso que ainda guardo. Hoje, vivo em busca da morena dos óculos negros que um dia balançou meu coração. Será que irei revê-la outra vez mais?...

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